Em 21 de maio de 2024, o Ministério da Saúde oficializou a incorporação de uma técnica cirúrgica que trata simultaneamente glaucoma e catarata no Sistema Único de Saúde (SUS). A medida foi publicada em portaria que atualiza as diretrizes de tratamento de doenças oculares e promete reduzir custos e melhorar a qualidade de vida de milhares de pacientes. A novidade será aplicada em hospitais e unidades de saúde de todo o país, beneficiando especialmente quem depende do atendimento público.
Inovação na abordagem do glaucoma
A nova estratégia foca nos casos de glaucoma primário de ângulo aberto de grau leve a moderado, forma mais comum da doença e que avança de maneira silenciosa. Tradicionalmente, o tratamento começa com colírios que diminuem a pressão intraocular, mas a adesão ao uso diário pode ser baixa. Quando os medicamentos falham ou a adesão é insuficiente, médicos recorrem a intervenções como laser ou cirurgias invasivas.
Até então, a cirurgia de implante de iStent era a opção mais difundida para pacientes que não respondiam ao tratamento medicamentoso. O iStent cria um canal de drenagem que reduz a pressão, porém exige equipamento específico e tem custo elevado. A técnica recém‑incorporada oferece uma alternativa que combina a remoção da catarata com a desobstrução do canal de drenagem em uma única sessão cirúrgica.
Detalhes da técnica de goniotomia excisional
A goniotomia excisional consiste em remover o cristalino opaco – a catarata – e, ao mesmo tempo, abrir o ângulo de drenagem do olho para melhorar o fluxo do humor aquoso. O procedimento pode ser realizado de duas maneiras:
- Incisão mínima na córnea, conhecida como goniotomia excisional.
- Uso de microcateter ou fio cirúrgico introduzido no canal natural de drenagem, técnica chamada trabeculotomia transluminal.
Ambas as abordagens visam reduzir rapidamente a pressão intraocular, acelerar a recuperação visual e minimizar complicações pós‑operatórias. Estudos preliminares indicam que pacientes submetidos à goniotomia apresentam menor necessidade de colírios e menos visitas de acompanhamento.
Os passos básicos da cirurgia são:
- Anestesia local e preparo do campo cirúrgico.
- Incisão corneana de poucos milímetros.
- Remoção do cristalino opaco e implantação da lente intraocular.
- Abertura controlada do trabeculado para facilitar a drenagem.
- Fechamento da incisão e aplicação de colírios anti‑inflamatórios.
O tempo médio de cirurgia varia entre 20 e 30 minutos, e a maioria dos pacientes pode retornar às atividades leves dentro de dois dias. A recuperação completa da visão costuma ocorrer em até quatro semanas, muito mais rápido que o período de reabilitação de cirurgias tradicionais de glaucoma.
Impactos econômicos e sociais
O Ministério da Saúde estima que a adoção da goniotomia excisional gerará economia de R$ 22,4 milhões já no primeiro ano de uso. Essa redução provém da diminuição da compra de dispositivos de iStent, menos uso de colírios de longo prazo e menor necessidade de intervenções de revisão.
Projeções de médio prazo apontam para um total de R$ 276 milhões economizados ao longo de cinco anos, considerando a substituição completa das cirurgias com iStent. Esse recurso pode ser redirecionado para ampliar o acesso a exames de diagnóstico precoce, capacitação de profissionais e expansão de unidades de saúde ocular.
Além do benefício financeiro, a técnica traz ganhos qualitativos:
- Maior adesão ao tratamento, já que o paciente recebe duas soluções em um único procedimento.
- Redução do risco de cegueira por glaucoma não controlado.
- Melhoria da qualidade de vida, permitindo que idosos mantenham independência visual.
Com a nova diretriz, o SUS reforça seu compromisso de oferecer tecnologias avançadas à população mais vulnerável, alinhando-se a padrões internacionais de cuidado oftalmológico.
Desafios e perspectivas futuras
Apesar dos benefícios anunciados, a implementação nacional enfrenta alguns obstáculos. É necessário treinar oftalmologistas em todo o país para que dominem ambas as variantes da técnica. Também é fundamental garantir a disponibilidade de lentes intraoculares de qualidade e de equipamentos de microcateter.
Outra questão envolve a conscientização dos pacientes. Muitos ainda desconhecem que a catarata e o glaucoma podem ser tratados simultaneamente, o que pode gerar resistência à mudança de protocolos tradicionais. Campanhas de informação e educação em saúde são essenciais para ampliar a aceitação.
O futuro da abordagem combinada pode incluir avanços como:
- Integração de tecnologias de imagem intraoperatória para melhorar a precisão da abertura do trabeculado.
- Desenvolvimento de lentes intraoculares com liberação controlada de medicamentos anti‑pressão.
- Estudos de longo prazo que comparem eficácia e segurança entre goniotomia e outras técnicas cirúrgicas.
Em síntese, a incorporação da goniotomia excisional ao SUS representa um marco na política de saúde ocular brasileira. Ao unir tratamento de catarata e controle de pressão intraocular, o país avança rumo a um modelo de cuidado mais eficiente, econômico e centrado no paciente.








