Lula segue à frente de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto, mas a vantagem tem diminuído nas duas semanas que antecedem o primeiro turno da eleição presidencial de 2026, realizada em todo o Brasil. O cenário se complica com a emergência de um sentimento de punição ao sistema político, descrito como “voto de vingança” pelos analistas. Essa dinâmica pode redefinir o equilíbrio de forças antes da votação.
Contexto das últimas pesquisas
A pesquisa mais recente da Quaest, divulgada entre 17 e 20 de setembro, entrevistou 2.004 eleitores e tem margem de erro de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. No primeiro turno, Lula registrou 37% das intenções, um aumento de apenas um ponto em relação à sondagem anterior, enquanto Flávio Bolsonaro chegou a 33%. Indecisos somam 8% e eleitores que pretendem votar branco ou nulo representam 7%.
No cenário hipotético do segundo turno, a diferença se inverte: Flávio alcança 42% contra 41% de Lula, com brancos e nulos subindo para 14% e indecisos caindo para 3%. Esse empate técnico no primeiro turno, pela primeira vez nos levantamentos da Quaest, indica que a corrida está mais apertada do que os números absolutos sugerem.
O fenômeno do voto de vingança
Segundo o colunista Robson Bonin, da revista VEJA, o “voto de vingança” surge como uma resposta punitiva de eleitores desencantados com a classe política. Ele descreve esse comportamento como uma manifestação de quem acredita que o sistema inteiro está “apodrecido” e precisa ser castigado nas urnas. Não se trata de um voto contra um candidato específico, mas contra o conjunto das instituições.
Bonin aponta três fatores que alimentam esse sentimento:
- Escândalos recentes, como o caso Banco Master, que expõem fraquezas e suspeitas de corrupção em diferentes poderes.
- Percepção de que as medidas governamentais, como o reajuste do Bolsa Família, não geram impacto suficiente para mudar a opinião dos eleitores.
- Desconfiança generalizada na capacidade da Presidência de conduzir mudanças estruturais, mesmo com a máquina governamental em plena operação.
Esses elementos criam um ambiente propício para que eleitores busquem “vingar” o sistema, optando por candidatos que simbolizem ruptura, ainda que esses também estejam sob investigação, como é o caso de Flávio Bolsonaro, ligado a Daniel Vorcaro.
Desdobramentos para a disputa eleitoral
Para Lula, a dificuldade de ampliar a base de apoio, mesmo com políticas de assistência social, indica que a máquina presidencial não está conseguindo converter recursos em votos adicionais. Bonin afirma que “nada do que essa grande máquina da Presidência produz consegue fazer com que o presidente decole nas intenções de voto”.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro tem aproveitado a crise institucional para se posicionar como alternativa ao establishment. Apesar das investigações que o cercam, ele parece ganhar força ao canalizar o descontentamento popular, reforçando a ideia de que o eleitorado está disposto a tolerar imperfeições individuais em troca de uma mudança de sistema.
O panorama aponta para um segundo turno ainda mais incerto. Com as margens de erro ainda englobando as duas lideranças, a disputa pode depender de como cada candidato reagirá ao aumento dos votos em branco e nulos, que já ultrapassam 10% nas simulações de segundo turno.
Analistas recomendam que as campanhas intensifiquem a comunicação de propostas concretas e busquem reconquistar eleitores indecisos, ao mesmo tempo em que enfrentam o risco de que o “voto de vingança” continue a driblar estratégias tradicionais de persuasão.
Em síntese, a reta final da eleição de 2026 está marcada por um eleitorado volátil, que equilibra expectativas de mudança com desconfiança profunda nas instituições. O desfecho dependerá não apenas da capacidade de mobilização dos candidatos, mas também da eficácia em transformar o sentimento de punição em apoio efetivo.








