O governo interino da Venezuela e a oposição estão próximos de concluir um acordo para mover cerca de US$ 4 bilhões em reservas de ouro do Banco da Inglaterra para o Federal Reserve Bank de Nova York. A negociação foi divulgada nesta quinta‑feira, 18 de setembro de 2026, e envolve decisões que podem mudar a dinâmica econômica do país sul‑americano.
Contexto da negociação e principais partes envolvidas
Desde 2019, as barras de ouro armazenadas em Londres são objeto de disputa entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição liderada por Juan Guaidó. A crise se intensificou quando os Estados Unidos, Reino Unido e outras nações reconheceram Guaidó como chefe de Estado legítimo, criando um impasse jurídico que perdura há sete anos.
Agora, a proposta em pauta prevê que a presidente interina Delcy Rodríguez obtenha o controle legal sobre o metal precioso, embora sem permissão para vender o ativo imediatamente. A ideia central é usar o ouro como garantia para empréstimos que financiem a reconstrução do país após os terremotos de junho.
- Governo interino: Delcy Rodríguez
- Oposição: liderada por Juan Guaidó e representantes no exterior
- Instituições financeiras: Banco da Inglaterra e Federal Reserve de Nova York
Objetivos econômicos e políticos do acordo
O acordo tem duas metas principais. Primeiro, desbloquear recursos que podem ser utilizados como colateral para linhas de crédito internacionais, aliviando a pressão fiscal sobre a população venezuelana. Segundo, servir como marco de confiança que pode impulsionar a retomada de negociações diplomáticas e abrir caminho para novas eleições, objetivo apoiado pelos Estados Unidos.
Especialistas apontam que, ao transformar o ouro em garantia, a Venezuela pode obter financiamento sem precisar vender o ativo, preservando seu valor de reserva. Isso também reduz o risco de que o metal seja usado para fins ilícitos, preocupação constante da oposição.
Além do aspecto financeiro, o movimento sinaliza uma reaproximação da Venezuela com a comunidade internacional. Em janeiro, Washington relaxou parte das sanções econômicas após a prisão de Nicolás Maduro, e em abril o FMI retomou relações oficiais com Caracas, permitindo acesso a recursos acumulados ao longo de sete anos.
Desafios e próximas etapas
Apesar do otimismo, ainda existem obstáculos técnicos e jurídicos. O Banco da Inglaterra afirmou que não pode agir até que uma decisão judicial determine quem tem autoridade legal sobre a conta que contém as reservas. A Suprema Corte do Reino Unido já analisou a disputa, mas ainda não há um veredicto definitivo.
A oposição insiste em mecanismos de controle rigoroso para impedir o uso indevido das barras de ouro. Uma fonte próxima ao grupo opositor explicou que, embora o ouro seja transferido para os Estados Unidos, Delcy Rodríguez não teria acesso direto aos ativos, reduzindo o risco de desvios.
As conversas também ocorrem em meio à retomada das relações diplomáticas entre Reino Unido e Venezuela. Nesta semana, os dois países concordaram em elevar o nível das relações bilaterais, com o retorno de um embaixador britânico a Caracas. O governo britânico declarou apoio às discussões sobre novas eleições no país sul‑americano.
Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e representante do governo nas negociações, visitou Londres recentemente e prometeu “boas notícias” ao povo venezuelano nas redes sociais, indicando que o acordo pode ser finalizado nos próximos dias.
Se concluído, o entendimento encerrará um impasse que se arrasta desde 2019, quando a comunidade internacional reconheceu Guaidó como legítimo líder. O desfecho pode abrir espaço para a realização de eleições livres e transparentes, objetivo central do apoio internacional à Venezuela.
Para garantir a transparência do processo, os negociadores têm considerado a criação de um comitê conjunto, composto por representantes do governo, da oposição e de observadores internacionais, que supervisionará a movimentação das reservas e a aplicação dos recursos obtidos.
Em síntese, a transferência das reservas de ouro representa um ponto de inflexão nas relações econômicas e políticas da Venezuela. Caso as partes cheguem a um consenso, o país poderá acessar linhas de crédito essenciais para a reconstrução de infraestrutura, saúde e educação, áreas gravemente afetadas pelos recentes desastres naturais.
Entretanto, a concretização do acordo depende de decisões judiciais pendentes, da capacidade de ambas as partes de manter a cooperação e da disposição da comunidade internacional em oferecer apoio financeiro e diplomático.
O futuro da Venezuela, portanto, está intrinsecamente ligado à forma como esse acordo será implementado e ao grau de confiança que o governo e a oposição conseguirão estabelecer entre si e com os parceiros externos.








