Na manhã desta quinta‑feira, 17 de setembro de 2026, a agência reguladora de telecomunicações da Venezuela liberou o acesso a vários veículos de imprensa que estavam bloqueados há anos. O anúncio foi feito pouco antes do início de uma nova rodada de negociações entre o governo interino e a oposição, cujo calendário inclui a discussão da liberdade de expressão. A medida foi comunicada oficialmente pela Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel), que afirmou ter restabelecido o acesso a plataformas digitais nacionais e internacionais.
Contexto histórico do bloqueio de sites na Venezuela
Desde a crise política que se aprofundou em 2015, o governo venezuelano adotou medidas restritivas contra a internet, bloqueando sites que considerava críticos ao regime. Organizações de direitos digitais denunciaram que a censura se tornou ferramenta de controle da narrativa oficial, forçando usuários a recorrer a VPNs e redes alternativas para acessar informações.
Entre os veículos mais afetados estavam El Nacional, Efecto Cocuyo, El Pitazo, Runrunes e TalCual. A restrição não apenas limitava o acesso ao conteúdo, mas também gerava perdas econômicas significativas para as redações, que viram sua audiência cair drasticamente.
Estudos realizados por ONGs como a VE Sin Filtro apontaram que, antes do desbloqueio, mais de 200 sites de notícias estavam inacessíveis, comprometendo a pluralidade da informação no país.
O anúncio do desbloqueio e os sites liberados
A Conatel divulgou, em comunicado oficial, que o “restabelecimento formal do acesso a diversas plataformas e veículos de comunicação digitais” seria efetivo a partir das primeiras horas do dia. O comunicado destacou que a medida foi tomada em resposta a demandas internas e ao apoio internacional à liberdade de imprensa.
Os sites que voltaram a ficar acessíveis incluem:
- El Nacional
- Efecto Cocuyo
- El Pitazo
- Runrunes
- TalCual
- NTN24 (com instabilidade inicial)
Para o diretor editorial do Runrunes, Luis Ernesto Blanco, a decisão representa um reconhecimento de que os bloqueios eram, de fato, censura arbitrária. “Não havia uma resolução administrativa ou ordem judicial que justificasse o bloqueio”, afirmou.
Entretanto, a liberação não foi uniforme. O portal TalCual recebeu acesso apenas em algumas operadoras, gerando ceticismo entre seus gestores. Amaya, diretor do TalCual, alertou que a situação poderia se assemelhar a “libertações anunciadas, mas parcialmente verificadas”.
Repercussões políticas e perspectivas futuras
O desbloqueio ocorreu momentos antes da abertura da mesa de diálogo entre o governo interino e a oposição, um processo mediado pelos Estados Unidos. A líder da delegação oposicionista, Dinorah Figuera, recebeu a notícia com otimismo, mas ressaltou que ainda há veículos que permanecem bloqueados.
O vice‑ministro da Comunicação, Gustavo Villapol, aproveitou a ocasião para defender uma mudança de postura do Estado em relação à imprensa, pedindo o fim da polarização e do uso da comunicação para fins políticos.
Especialistas apontam que a medida pode melhorar o ambiente de negócios para anunciantes, que antes evitavam veículos censurados por medo de represálias. Segundo dados da VE Sin Filtro, o TalCual perdeu cerca de 60% de seu tráfego durante o período de bloqueio, afetando sua receita publicitária.
O contexto internacional também influenciou a decisão. Em junho, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, destacou que a recuperação da Venezuela depende da criação de condições para uma imprensa livre e independente. A pressão diplomática pode ter acelerado a ação da Conatel.
Apesar do avanço, organizações de direitos humanos continuam alertando que 188 sites permanecem bloqueados, incluindo 79 veículos de notícias. A comunidade jornalística mantém vigilância para garantir que o desbloqueio seja efetivo e permanente.
Na mesma tarde, a líder oposicionista María Corina Machado denunciou a prisão arbitrária de Javier Oropeza, ex‑prefeito de Torres, reforçando a tensão entre liberdade de expressão e repressão estatal.
Observadores internacionais concluem que a medida, embora simbólica, abre espaço para discussões mais amplas sobre a reforma do setor de telecomunicações e a garantia de direitos digitais na Venezuela. O próximo passo será monitorar a implementação prática nas diferentes operadoras e avaliar se a abertura de acesso se traduzirá em maior pluralismo informativo.








