Um estudo da Universidade de Oxford revelou que consumir chá ou café a temperaturas elevadas pode triplicar a probabilidade de desenvolver câncer de esôfago. A pesquisa, publicada em 2024, analisou quase um milhão de adultos de meia‑idade em diferentes regiões do mundo. Os resultados apontam para uma relação direta entre o calor das bebidas e o risco de tumores esofágicos.
Como a temperatura afeta o esôfago
Quando um líquido supera os 65 °C ao ser ingerido, ele entra em contato direto com a mucosa esofágica, que é composta por células sensíveis ao calor. Essa exposição repetida provoca microlesões que, ao cicatrizarem, podem gerar alterações genéticas predisponentes ao câncer.
O esôfago, por ser um tubo muscular que transporta alimentos da boca ao estômago, não possui mecanismos de defesa tão robustos quanto o estômago, que possui ácido e muco para neutralizar agressões. Assim, a temperatura excessiva representa um fator de risco específico para esse órgão.
Além do calor, a frequência de consumo também desempenha papel importante. Beber seis ou mais xícaras de bebidas acima de 65 °C diariamente eleva ainda mais a chance de desenvolvimento da doença, segundo os autores.
Evidências científicas e dados do estudo
A investigação liderada por Keren Papier reuniu informações de 977 mil participantes, divididos entre homens e mulheres de diferentes faixas etárias, mas com predominância de adultos entre 40 e 65 anos. Os dados foram coletados ao longo de mais de uma década, permitindo observar tendências de longo prazo.
Os pesquisadores compararam três grupos: quem consumia bebidas mornas (até 55 °C), bebidas quentes moderadas (55‑65 °C) e bebidas muito quentes (acima de 65 °C). O risco relativo de câncer de esôfago foi aproximadamente três vezes maior no último grupo, mesmo após ajustar variáveis como tabagismo, álcool e dieta.
Vale notar que, apesar do aumento relativo, a incidência absoluta do câncer de esôfago permaneceu baixa – menos de 2 casos por 10 mil pessoas ao ano – reforçando que o risco ainda é pequeno em termos absolutos.
Estudos anteriores realizados na América do Sul, onde o consumo de mate quente é culturalmente intenso, já haviam sugerido uma associação semelhante. Contudo, a pesquisa de Oxford é a maior já realizada, oferecendo maior robustez estatística.
- Temperatura considerada perigosa: ≥ 65 °C;
- Consumo diário de ≥ 6 bebidas muito quentes aumenta risco;
- Risco relativo: até 3 vezes maior;
- Incidência absoluta permanece baixa.
Os resultados foram publicados no International Journal of Cancer, um periódico revisado por pares que garante a credibilidade das conclusões.
Recomendações práticas para reduzir o risco
A orientação mais simples é aguardar alguns minutos antes de ingerir a bebida. Uma temperatura morna, entre 45 °C e 55 °C, costuma ser confortável ao paladar e não provoca lesões ao esôfago.
Algumas estratégias úteis incluem:
- Despejar a água fervente em uma caneca e deixá‑la repousar por 3‑5 minutos;
- Usar termômetros de cozinha para medir a temperatura antes de consumir;
- Adicionar gelo ou leite frio ao chá ou café recém‑preparado;
- Preferir infusões que naturalmente exigem menor temperatura, como chás verdes.
Além da temperatura, manter hábitos saudáveis – evitar tabaco, limitar álcool e consumir uma dieta rica em fibras – potencializa a proteção contra o câncer esofágico.
Para quem tem dificuldade em perceber a temperatura, confiar em sinais sensoriais pode ser enganoso, pois a tolerância ao calor varia amplamente entre indivíduos. Por isso, a medição objetiva é a medida mais segura.
Profissionais de saúde recomendam que pessoas com histórico familiar de câncer de esôfago ou com condições pré‑existentes, como esofagite crônica, sejam ainda mais cautelosas ao consumir bebidas quentes.
Em ambientes de trabalho ou escolas, a conscientização sobre o risco pode ser incorporada em campanhas de educação alimentar, incentivando pausas antes de beber e a oferta de opções em temperatura controlada.
Por fim, a pesquisa reforça a importância de considerar não apenas o conteúdo nutricional das bebidas, mas também a forma como são consumidas. Pequenas mudanças no hábito diário podem representar uma significativa redução do risco a longo prazo.
Continuar acompanhando novas evidências científicas é fundamental, já que a compreensão dos mecanismos de lesão térmica ainda evolui. Enquanto isso, a prática de esperar a bebida esfriar é uma medida preventiva simples, barata e eficaz.








