Em 2025, o registro de escrituras em São Paulo atingiu um pico histórico, refletindo a mudança de comportamento dos compradores de imóveis após o declínio do home office. O levantamento do Colégio Notarial do Brasil (CNB/SP) mostra que, enquanto a capital registrou um aumento de 49,6% nas transações em relação a 2020, cidades que antes atraíam quem buscava mais espaço e tranquilidade perderam ritmo.
O retorno da proximidade ao trabalho
Durante a fase mais intensa da pandemia, a flexibilidade de trabalhar de qualquer lugar fez com que milhares de famílias deixassem a capital em busca de qualidade de vida. O fenômeno impulsionou a compra de casas com quintal, condomínios em áreas verdes e propriedades próximas a praias.
Entretanto, nos últimos dois anos, muitas empresas adotaram modelos híbridos ou totalmente presenciais, exigindo que os colaboradores compareçam ao escritório em média de três a cinco dias por semana. Essa mudança reintroduziu a distância entre residência e local de trabalho como critério decisivo na escolha do imóvel.
Segundo pesquisa da Robert Half, profissionais de construção civil e engenharia passam 4,8 dias por semana no escritório, enquanto o setor de serviços registra 3,3 dias. Esses números contrastam com o cenário de 2021, quando a maioria das vagas era remota.
O efeito prático para quem migrou para cidades do interior foi o aumento de custos com transporte, tempo gasto em deslocamento e a necessidade de lidar com trânsito e pedágios. A percepção de desvantagem do trabalho presencial foi confirmada por 65% dos entrevistados na pesquisa da WeWork.
Cidades que sentiram a queda
O levantamento do CNB/SP revelou quedas expressivas nas escrituras de cidades que foram protagonistas da migração durante a pandemia. Entre 2021 e 2025, Itupeva registrou uma redução de 57%, Cotia 41%, Indaiatuba 36% e Atibaia 31%.
Essas cidades, antes vistas como refúgios tranquilos, agora enfrentam um mercado mais estagnado, com menos demanda por imóveis residenciais de alto padrão. O número de novas construções também desacelerou, refletindo a cautela dos investidores.
Para ilustrar o impacto, veja a lista das cidades mais afetadas:
- Itupeva – queda de 57% nas escrituras;
- Cotia – queda de 41%;
- Indaiatuba – queda de 36%;
- Atibaia – queda de 31%;
- Jundiaí – queda de 28% (dados preliminares).
Especialistas apontam que a retomada da demanda pela proximidade ao trabalho não significa um retorno total ao padrão pré‑pandemia, mas sim a consolidação de um novo equilíbrio entre qualidade de vida e conveniência.
Andrey Guimarães Duarte, vice‑presidente do CNB/SP, ressalta que “os números precisam ser analisados com cautela” e que o mercado está entrando em uma fase de reconfiguração, onde o home office ainda tem papel, porém compartilhado com a necessidade de presença física.
Perspectivas para compradores e investidores
Para quem ainda considera mudar de residência, a tendência indica que a escolha será pautada por uma combinação de fatores: acesso a transporte público, proximidade a polos de emprego e qualidade de infraestrutura local. O “custo‑benefício” do deslocamento volta a ser um ponto central nas decisões.
Investidores imobiliários devem observar a diversificação de portfólios, priorizando projetos que ofereçam flexibilidade, como unidades com home office integrado, mas localizadas em regiões com boa conectividade. O desenvolvimento de empreendimentos mistos, que combinam áreas residenciais, comerciais e de coworking, ganha relevância.
Além disso, a demanda por imóveis em cidades médias que oferecem um meio‑termo entre a metrópole e o interior pode crescer. Essas localidades combinam acesso a serviços de qualidade com preços mais acessíveis que a capital.
Em síntese, o fim do home office como prática dominante não elimina a busca por melhor qualidade de vida, mas reconfigura as prioridades dos compradores. O mercado imobiliário de São Paulo está, portanto, em transição, exigindo adaptação tanto de consumidores quanto de desenvolvedores.








