Um estudo realizado no Canadá e publicado em junho de 2024 revelou que combinações de medicamentos comuns podem gerar efeitos adversos que levam idosos a receber novas prescrições sem necessidade. A pesquisa identificou que estatinas, suplementos de ferro e outros fármacos são frequentemente responsáveis por iniciar uma sequência de tratamentos desnecessários. O levantamento foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Toronto em colaboração com o hospital Sinai Health.
O que são as cascatas de prescrições potencialmente inadequadas (PIPC)
As chamadas cascatas de prescrições surgem quando o efeito colateral de um medicamento é interpretado como um novo problema de saúde. O médico, ao observar o sintoma, prescreve um segundo fármaco para tratá‑lo, sem perceber que o primeiro já era a causa. Esse processo pode se repetir, criando uma cadeia de tratamentos que aumentam o risco de interações e complicações.
Segundo a Dra. Paula Rochon, diretora do Centro de Saúde de Mulheres Maduras, essas sequências são comuns, mas frequentemente ignoradas na prática clínica. Ela enfatiza que o histórico completo de uso de medicamentos – incluindo a data de início e a indicação original – é essencial para detectar essas cadeias problemáticas.
- Estatinas para controle de colesterol
- Suplementos de ferro para anemia
- Inibidores da bomba de prótons (IBP) para refluxo gástrico
- Antidepressivos tricíclicos
- Analgesia opioide para dor crônica
Quando um desses fármacos provoca, por exemplo, retenção urinária ou tontura, o sintoma pode ser confundido com uma nova condição, levando à prescrição de um diurético ou de um sedativo. Cada nova medicação adiciona ao risco de efeitos colaterais adicionais.
Impacto nas mulheres idosas
O estudo destacou que as mulheres acima de 65 anos são particularmente vulneráveis a essas cascatas. Elas tendem a apresentar um número maior de doenças crônicas, como osteoartrite, hipertensão e diabetes, o que eleva a quantidade de medicamentos em uso.
Além disso, pesquisas apontam que as mulheres relatam mais efeitos adversos que os homens, possivelmente devido a diferenças fisiológicas e metabólicas. Essa maior suscetibilidade aumenta a probabilidade de que um efeito colateral seja interpretado como um novo diagnóstico.
Como consequência, as mulheres idosas enfrentam um risco desproporcional de hospitalizações relacionadas a interações medicamentosas. Dados do estudo mostraram que 38% das hospitalizações por reações adversas em pacientes acima de 70 anos estavam associadas a prescrições em cascata.
Recomendações para profissionais de saúde
Para interromper esse ciclo, a pesquisa sugere a implementação de revisões farmacêuticas regulares. Durante cada consulta, o médico deve solicitar ao paciente uma lista completa de todos os medicamentos, incluindo vitaminas e suplementos.
Ferramentas digitais que cruzam informações de prescrições podem auxiliar na identificação de padrões suspeitos. Sistemas de alerta eletrônicos, por exemplo, podem notificar o profissional quando um novo fármaco pode estar relacionado a um efeito colateral de outro já em uso.
Outra medida preventiva é a prática de “deprescrição” consciente, que envolve a retirada gradual de medicamentos que não apresentam benefício claro ou que podem estar contribuindo para efeitos adversos. Esse processo deve ser conduzido com acompanhamento cuidadoso para evitar a recorrência dos sintomas originais.
Por fim, a educação do paciente desempenha papel crucial. Informar os idosos sobre a importância de relatar todos os sintomas e de questionar novas prescrições pode reduzir a aceitação automática de medicamentos desnecessários.
Em resumo, o estudo canadense lança luz sobre um problema silencioso que afeta milhares de idosos, especialmente mulheres, e oferece diretrizes práticas para que médicos, farmacêuticos e pacientes trabalhem juntos na prevenção de cadeias de prescrições inadequadas.








