Um estudo conduzido pela Universidade de Oxford analisou quase um milhão de adultos no Reino Unido e revelou que consumir chá ou café em temperatura muito alta eleva consideravelmente o risco de carcinoma espinocelular do esôfago. Os achados foram publicados na International Journal of Cancer na terça‑feira, 8 de setembro de 2023. A pesquisa traz novas evidências para a prevenção de um tipo de câncer que afeta milhares de pessoas ao redor do mundo.
Contexto e motivação da pesquisa
Investigações anteriores realizadas no Japão, Irã e em países da América do Sul já haviam apontado uma possível ligação entre bebidas quentes e câncer de esôfago, mas a maioria desses estudos focou em bebidas regionais, como o mate, ou em populações com hábitos de consumo específicos. Essa limitação dificultava a extrapolação dos resultados para contextos ocidentais, onde o consumo de chá e café é predominante.
Na última década, a incidência de carcinoma espinocelular tem despertado atenção de autoridades de saúde, especialmente porque esse tipo de câncer está associado a fatores evitáveis, como tabagismo, consumo excessivo de álcool e, potencialmente, temperatura das bebidas. No entanto, até então, faltavam dados robustos que quantificassem o risco em escala populacional.
O interesse dos pesquisadores britânicos surgiu da necessidade de preencher essa lacuna, utilizando bases de dados extensas e representativas da população adulta do Reino Unido. Ao combinar duas coortes de grande porte – o Million Women Study (MWS) e o UK Biobank – foi possível observar padrões de consumo ao longo de mais de uma década.
Além de investigar a temperatura, o estudo também avaliou a frequência diária de ingestão de bebidas quentes, permitindo analisar se o efeito cumulativo poderia amplificar o risco de desenvolvimento do tumor.
Essas questões foram fundamentais para orientar políticas de saúde pública e recomendações de estilo de vida que possam reduzir a carga de casos de câncer de esôfago nos próximos anos.
Metodologia e principais achados
Os participantes foram questionados sobre a temperatura preferida ao consumir chá ou café, com opções que variavam de “morna” a “muito quente”. Também foram perguntados quantas xícaras consumiam por dia, totalizando a ingestão diária de bebidas quentes.
Os dados foram cruzados com registros de diagnóstico de câncer de esôfago, distinguindo entre carcinoma espinocelular (CEC) e adenocarcinoma esofágico, duas entidades com etiologias distintas.
Nos dois grupos de estudo, pouco menos da metade dos entrevistados relatou consumir seis ou mais bebidas quentes por dia, e cerca de 15% preferia ingerir os líquidos em temperatura muito alta.
Ao analisar o risco relativo, os pesquisadores observaram que o consumo de bebidas “muito quente” triplicou a probabilidade de desenvolver CEC em comparação com a ingestão de bebidas “morna”. O aumento foi consistente nas duas coortes, reforçando a robustez dos resultados.
Além da temperatura, a frequência diária também se mostrou relevante: quem consumia seis ou mais bebidas quentes por dia apresentou um aumento de 71% no risco de CEC em relação àqueles que consumiam menos de seis.
Curiosamente, nenhum dos dois fatores – temperatura nem frequência – mostrou associação significativa com o adenocarcinoma esofágico, indicando que o calor do líquido, e não seus componentes químicos, é o principal agente carcinogênico neste caso.
Os autores concluíram que a temperatura da bebida é um fator de risco substancial e que intervenções simples, como esperar o resfriamento dos líquidos antes de ingerir, podem ter impacto positivo na prevenção do CEC.
Implicações para a saúde pública no Brasil
No Brasil, o câncer de esôfago ocupa a sexta posição entre os homens e a décima quinta entre as mulheres, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Embora a incidência seja menor que a de outros tumores, a mortalidade permanece alta devido ao diagnóstico tardio.
Os hábitos de consumo de chá e café são amplamente difundidos no país, especialmente em regiões onde a cultura de “cafézinho” é parte integrante do cotidiano. Muitas vezes, a bebida é preparada muito quente, seguindo a tradição de servir o café recém‑passado.
Diante desses dados, a pesquisa britânica oferece subsídios importantes para campanhas de prevenção que podem ser adaptadas ao contexto brasileiro, enfatizando a importância de reduzir a temperatura das bebidas sem comprometer o prazer de consumi‑las.
Além disso, a evidência de que a frequência diária de ingestão também eleva o risco sugere que a moderação, tanto em quantidade quanto em temperatura, pode ser uma estratégia eficaz para diminuir a carga de casos de CEC.
Políticas de saúde podem incluir orientações em programas de educação alimentar, em unidades de atenção básica e em campanhas de mídia que alertem sobre os perigos de consumir líquidos muito quentes.
Profissionais de saúde, como médicos de família e nutricionistas, podem incorporar essas recomendações nas consultas de rotina, especialmente para pacientes com histórico de tabagismo ou consumo de álcool, que já apresentam risco aumentado para câncer de esôfago.
Por fim, a integração desses achados com outras estratégias de prevenção – como controle do tabagismo, redução do consumo de álcool e tratamento da doença do refluxo gastroesofágico – pode potencializar os resultados e salvar vidas.
Recomendações práticas para consumidores
Com base nos resultados da pesquisa, seguem algumas medidas simples que podem ser adotadas no dia a dia para reduzir o risco de CEC:
- Aguarde alguns minutos antes de beber chá ou café recém‑preparado; a temperatura ideal costuma estar entre 55°C e 65°C.
- Utilize termômetros de cozinha ou teste o líquido com a língua antes de ingerir, garantindo que não esteja excessivamente quente.
- Limite a ingestão diária de bebidas quentes a menos de seis xícaras, preferindo água ou bebidas frias nos intervalos.
- Combine a redução da temperatura com outras práticas saudáveis, como evitar fumar, moderar o álcool e tratar o refluxo gastroesofágico.
- Eduque familiares e colegas sobre os riscos associados ao consumo de líquidos muito quentes, especialmente crianças e idosos, que são mais sensíveis a queimaduras.
Adotar essas pequenas mudanças pode parecer simples, mas a evidência científica demonstra que elas têm potencial para diminuir significativamente a incidência de carcinoma espinocelular do esôfago em populações que consomem grandes volumes de chá e café.
Além disso, a prática de deixar a bebida esfriar um pouco antes de beber pode melhorar a experiência sensorial, permitindo que os sabores se tornem mais perceptíveis e apreciados.
Em resumo, a temperatura dos líquidos que ingerimos diariamente pode ser um fator determinante para a saúde do esôfago. Ajustar esse detalhe pode representar uma medida preventiva de baixo custo e alta eficácia.








