Adelle Overton, de Derby, contou à BBC que foi estuprada pelo namorado enquanto dormia, durante o tratamento de um câncer de mama. O relato, feito em 2024, expõe uma violência silenciosa que perdurou por treze anos. O caso ganhou destaque nacional após a prisão de Steven Uden.
O início da história de amor
Adelle e Steven se conheceram em 2009 nas filmagens de um filme de zumbis em Nottingham. Na época, ela tinha 29 anos e ele, 27, e ambos ainda estavam em outros relacionamentos.
Apesar das circunstâncias, mantiveram contato como amigos e, em 13 de janeiro de 2012, iniciaram um namoro oficial após maratonarem filmes da série Sexta‑Feira 13.
O casal descrevia a relação como “diferente de tudo que já havia vivido”. Steven era visto como carinhoso, divertido e pronto a apoiar a parceira em qualquer situação.
Quando o cuidado virou controle
Em 2017, Adelle recebeu o diagnóstico de síndrome de Ehlers‑Danlos, o que a impediu de continuar trabalhando como zumbi em eventos de terror. Steven, então, assumiu o papel de cuidador, ajudando-a nas tarefas diárias e nos compromissos médicos.
Com o tempo, comportamentos sutis começaram a mudar. Ele passava a dizer às outras pessoas o que Adelle poderia ou não fazer, diminuindo sua autonomia.
- “Acho que a Dell não conseguiria fazer isso”, dizia ele em público.
- Impedia que ela aceitasse convites ou novas atividades.
- Controlava até as pequenas decisões do dia a dia.
Essas atitudes, embora parecessem “proteção”, eram sinais claros de controle abusivo, que se intensificaram quando a saúde de Adelle piorou.
A descoberta do abuso durante o sono
Em 2020, durante a quimioterapia para tratar um câncer de mama, Adelle começou a notar irregularidades. Ela acordava com a sensação de ter sido tocada, mas Steven sempre apresentava desculpas como “achei que você estivesse acordada”.
Inicialmente, ela descartou os episódios, preferindo acreditar nas explicações do parceiro a enfrentar a dolorosa realidade.
Foi somente quando Steven confessou, em um momento de culpa, que a verdade veio à tona: ele a estuprava enquanto ela dormia, aproveitando o efeito dos medicamentos que a deixavam vulnerável.
Ao ouvir a confissão, Adelle sentiu uma traição profunda, pois acreditava estar em um dos relacionamentos mais seguros de sua vida.
Denúncia, prisão e repercussão
Após a confissão, Steven foi preso e está aguardando julgamento. Adelle decidiu romper o anonimato e relatar sua história à BBC, na esperança de que outras vítimas encontrem coragem para denunciar.
O caso gerou debates sobre a necessidade de reconhecer abusos que ocorrem dentro de lares aparentemente “perfeitos”. Especialistas apontam que a violência sexual pode acontecer mesmo quando o agressor exerce papel de cuidador.
Além da prisão, a história de Adelle trouxe à tona um conjunto de sinais de alerta que podem ajudar a identificar relacionamentos abusivos:
- Isolamento social e controle excessivo das atividades da vítima.
- Desvalorização das emoções e opiniões da parceira.
- Justificativas que minimizam comportamentos violentos.
- Uso de medicamentos ou condições de saúde como pretexto para abuso.
Ao compartilhar sua experiência, Adelle espera que outras mulheres reconheçam esses padrões e busquem ajuda antes que a situação se agrave.
O caminho da recuperação
Hoje, Adelle continua o tratamento oncológico e participa de grupos de apoio a sobreviventes de violência sexual. Ela destaca a importância de falar abertamente sobre o trauma para romper o silêncio que alimenta o agressor.
“Ainda sinto dor, mas ao contar minha história me sinto mais forte”, afirma. “Quero que minha voz sirva de alerta para quem ainda está preso em um relacionamento que parece perfeito por fora, mas é destrutivo por dentro”.
Organizações de direitos humanos e de apoio à mulher têm usado o caso como exemplo em campanhas de conscientização, reforçando a necessidade de políticas públicas mais efetivas para proteger vítimas vulneráveis.
O relato de Adelle também impulsionou discussões sobre a legislação que trata de crimes sexuais cometidos por parceiros íntimos, especialmente quando a vítima está incapacitada por tratamento médico.
Com a atenção da mídia e o apoio de especialistas, espera‑se que o caso contribua para mudanças concretas na forma como a sociedade enxerga e combate a violência doméstica e sexual.








