Uma pesquisa recente realizada em 18 países ocidentais revelou que quem se identifica como canhoto costuma se posicionar politicamente mais à esquerda que quem se considera destro. O levantamento, concluído no último trimestre de 2023, analisou as respostas de mais de mil e quatrocentas pessoas. Os resultados apontam para a importância da identidade percebida, e não da biologia, na formação das preferências políticas.
Metodologia da pesquisa
O estudo foi conduzido por uma equipe acadêmica que utilizou um questionário online. Foram entrevistados 1.404 indivíduos provenientes de nações como França, Alemanha, Estados Unidos, Itália e Espanha, entre outras.
Os participantes responderam a duas perguntas centrais: a primeira sobre sua posição política em uma escala de dez pontos, da direita (1) à esquerda (10); a segunda sobre sua lateralidade, indicando se se consideravam canhotos ou destros.
Para aprofundar a análise, o questionário também coletou informações demográficas – idade, renda, sexo e nível de escolaridade – permitindo controlar esses fatores nas comparações.
Além da auto‑declaração de lateralidade, os pesquisadores pediram que os entrevistados descrevessem a mão predominante em quatro atividades cotidianas: escrever, usar tesoura, escovar os dentes e arremessar uma bola. Essa medida objetiva buscava validar o uso real da mão esquerda.
- França
- Alemanha
- Estados Unidos
- Itália
- Espanha
- Reino Unido
- Canadá
- Austrália
- Holanda
- Suécia
Embora a amostra não fosse representativa de cada país – a pesquisa contou com uma participação elevada do Reino Unido – os autores verificaram que a exclusão desse país não alterou significativamente os resultados.
Principais resultados
O primeiro achado mostrou que os indivíduos que se declaram canhotos situam‑se, em média, meio ponto mais à esquerda na escala política. Essa diferença, embora pareça pequena, supera a disparidade observada entre gêneros, onde as mulheres ficaram 0,4 ponto mais à esquerda que os homens.
Quando a lateralidade foi medida de forma objetiva, ou seja, analisando o uso real da mão esquerda nas atividades diárias, a associação com a orientação política desapareceu. Isso indica que o simples fato de usar a mão esquerda não explica a tendência política.
Outro ponto relevante foi a variação do efeito entre regiões. Nos países latinos da amostra – França, Espanha e Itália – a correlação entre identidade canhota e posicionamento à esquerda foi mais pronunciada, sugerindo que contextos culturais que enfatizam a polarização esquerda‑direita intensificam o fenômeno.
Em resumo, a identidade percebida como canhoto parece exercer um papel simbólico que se traduz em escolhas políticas mais progressistas.
Interpretação dos achados
Os autores argumentam que, se a biologia fosse o principal motor da diferença, a medida objetiva do uso da mão esquerda teria revelado um efeito consistente. Como isso não ocorreu, a explicação mais plausível recai sobre mecanismos de identidade social.
Ao se reconhecer como canhoto, o indivíduo pode internalizar uma sensação de diferença ou marginalização, o que, em alguns contextos, se alinha a narrativas políticas de inclusão e mudança social – temas típicos da esquerda.
Além disso, a presença de estereótipos históricos sobre canhotos (por exemplo, associações a criatividade ou a não‑conformidade) pode reforçar a identificação com grupos que se posicionam contra o status‑quo.
Essas hipóteses são reforçadas pelo fato de que a associação se fortalece em países onde o discurso sobre esquerda e direita tem grande peso simbólico no debate público.
Implicações e próximos passos
Os resultados sugerem que pesquisas sobre comportamento eleitoral devem considerar atributos de identidade menos óbvios, como a percepção de lateralidade, ao analisar padrões de voto.
Para aprofundar o entendimento, os pesquisadores propõem estudos longitudinais que acompanhem a evolução da identidade canhota ao longo da vida e sua relação com mudanças de posicionamento político.
Outra linha de investigação recomendada envolve a comparação com contextos não ocidentais, onde as percepções sobre canhotos podem ser mais negativas, a fim de testar se o efeito observado se mantém ou se inverte.
Em termos práticos, campanhas políticas poderiam explorar, de forma ética, a linguagem de identidade para conectar-se com eleitores que se reconhecem como diferentes ou marginalizados.
Por fim, a pesquisa destaca a complexidade dos fatores que moldam as preferências eleitorais, lembrando que atributos aparentemente triviais podem ter impactos surpreendentes quando analisados sob a ótica da identidade social.








