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Secas recordes e fome assolam o Corredor Seco da América Central durante o El Niño

O fenômeno climático El Niño, que atingiu sua intensidade máxima em 2023‑2024, está provocando uma crise hídrica sem precedentes no Corredor Seco da América Central. Agricultores, famílias e comunidades rurais enfrentam a escassez de água e a perda total de colheitas, o que eleva drasticamente o risco de insegurança alimentar na região.

A crise no coração da América Central

Juan Estanislao Muñoz, de 61 anos, mora na comunidade das Chácaras, no sul de Honduras, e descreve a situação como “a pior seca que já vi em toda a minha vida”. Ele vive com um sobrinho e depende da agricultura de subsistência, cultivando milho e feijão em duas safras anuais.

O Corredor Seco atravessa cinco países – Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica – e concentra mais de 10 milhões de habitantes. Mais de 70 % da população rural vive abaixo da linha da pobreza, e mais de um milhão de crianças sofrem de atraso no crescimento por desnutrição, segundo dados da ONU.

Com a chegada do El Niño, as chuvas que deveriam garantir a primeira colheita entre maio e agosto simplesmente não ocorreram. “Na primeira colheita, não tivemos nada. Agora, a terra está limpa, mas se não chover, não teremos produção de milho”, relata Muñoz.

Como o El Niño intensifica a escassez

O El Niño é um aquecimento anômalo da superfície do Pacífico que se repete a cada dois a sete anos. O ciclo atual foi classificado como o mais forte desde 1900 pelo Serviço Meteorológico do Reino Unido. Essa elevação da temperatura altera padrões de vento e precipitação em escala global.

Na América Central, o efeito se traduz em:

  • Redução de até 60 % nas chuvas esperadas para a estação de maio a agosto;
  • Aumento da evaporação, deixando os rios e reservatórios quase secos;
  • Elevação da temperatura média diária, agravando o estresse hídrico nas plantações;
  • Incidência de incêndios florestais que consomem áreas de pastagem e reduzem ainda mais a disponibilidade de forragem para o gado.

Essas mudanças climáticas se somam à vulnerabilidade estrutural da região, onde a maioria das famílias depende de pequenos lotes de terra e de recursos hídricos limitados.

Impactos sociais e respostas humanitárias

Lena Savelli, diretora regional do Programa Mundial de Alimentos (PMA) para a América Latina, visitou Honduras e descreveu a paisagem transformada em “um deserto de terra e pedras onde antes corria um rio que abastecia comunidades inteiras”.

Os números são alarmantes: em Honduras, a população em insegurança alimentar pode crescer de 1,4 milhão para 1,9 milhão. Em toda a América Central, o PMA estima que 4,2 milhões de pessoas poderão entrar em situação de insegurança alimentar. No âmbito latino‑caribenho, a projeção chega a 16 milhões, e globalmente o El Niño pode elevar o total de pessoas em insegurança aguda de 225 milhões para 274 milhões.

Para mitigar a crise, o PMA, em parceria com governos regionais, iniciou desde março de 2024 uma assistência antecipada que já beneficiou mais de 400 mil pessoas no Corredor Seco. As ações incluem:

  • Distribuição de alimentos de emergência (milho, feijão, óleo vegetal);
  • Pagamentos em dinheiro equivalentes a US $ 1 por pessoa, para que as famílias comprem itens essenciais;
  • Instalação de bombas de água solar em comunidades que perderam o acesso a fontes de abastecimento;
  • Programas de apoio à recuperação de pastagens, com sementes de forragem resistente à seca.

Além disso, organizações não‑governamentais locais têm promovido a construção de cisternas comunitárias e treinamentos em técnicas de agricultura de conservação, como o plantio direto e o uso de mulching, para reduzir a perda de umidade do solo.

Perspectivas e medidas de mitigação

Especialistas apontam que, se a tendência de eventos climáticos extremos persistir, a região precisará de estratégias de longo prazo que vão além da assistência emergencial. Entre as recomendações estão:

  • Investimento em infraestrutura de armazenamento de água, como reservatórios de enchente e sistemas de captação de chuva;
  • Reforma de políticas agrícolas, incentivando cultivos mais resilientes à seca, como milheto e sorgo;
  • Fortalecimento de redes de alerta precoce, para que agricultores recebam informações tempestivas sobre previsões climáticas;
  • Integração de seguros climáticos para pequenos produtores, reduzindo o impacto econômico de perdas de safra.

Enquanto as negociações internacionais avançam para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, a realidade no Corredor Seco permanece crítica. A combinação de um El Niño histórico e mudanças climáticas estruturais exige ação coordenada, recursos financeiros sustentados e, sobretudo, a participação ativa das comunidades locais.

Em última análise, a sobrevivência de milhões de pessoas depende da capacidade de transformar a vulnerabilidade em resiliência, garantindo água, alimentos e oportunidades de sustento mesmo diante de condições climáticas adversas.

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