Candidatos à Presidência do Brasil têm colocado em suas agendas a atração de novos data centers, visando impulsionar a economia digital do país. A proposta vem ganhando força nas pesquisas realizadas até junho de 2024, e as discussões se concentram principalmente em regiões como São Paulo, Minas Gerais e o Nordeste, onde há potencial para infraestrutura de energia renovável.
Por que os data centers são estratégicos para o Brasil
Um data center é um complexo de instalações que armazena, processa e distribui grandes volumes de dados, servindo tanto a serviços de nuvem quanto a aplicações de inteligência artificial. Esses ambientes exigem alta capacidade computacional, conectividade robusta e, sobretudo, energia confiável para manter servidores operando 24 horas por dia.
O Brasil encerrou 2023 com um déficit de cerca de US$ 8 bilhões na balança comercial de Serviços de Computação e Informação, segundo a Brasscom. Esse número revela a dependência do país em relação a serviços externos de nuvem e IA, o que gera fuga de receitas e vulnerabilidade estratégica.
Ao incentivar a instalação de data centers domésticos, o governo pode reverter esse quadro, mantendo receitas dentro da economia, gerando empregos qualificados e estimulando a cadeia produtiva de hardware, software e serviços de energia.
Além do aspecto econômico, a presença de data centers locais reduz a latência de acesso a serviços digitais, melhora a experiência do usuário e favorece a soberania dos dados, tema cada vez mais presente nos debates sobre privacidade e segurança nacional.
Desafios e críticas observados nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, a expansão acelerada de data centers tem encontrado forte resistência da população. Uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que 64% dos americanos discordam que a construção rápida desses complexos seja positiva, e 57% se opõem à sua presença em bairros residenciais.
Os protestos são motivados principalmente pelo alto consumo de energia e água, bem como pelos impactos ambientais associados ao uso intensivo de combustíveis fósseis. O mix energético americano ainda depende em grande parte de petróleo e gás natural, o que eleva as emissões de carbono e os custos de energia para as comunidades vizinhas.
Em cidades como Frederick, Maryland, manifestantes bloquearam a expansão de centros de IA, temendo que a demanda por energia aumentasse as contas de luz e comprometesse recursos hídricos. A situação ilustra como a falta de planejamento ambiental pode gerar conflitos sociais.
Especialistas como Daniel Cordeiro, da USP, alertam que o Brasil deve aprender com esses episódios. “Precisamos ampliar nossa capacidade computacional, mas sem repetir os erros de quem já enfrentou forte oposição social”, afirma o professor de computação sustentável.
Propostas dos candidatos e o papel do regime Redata
Todos os principais candidatos à Presidência, segundo a pesquisa de opinião de junho de 2024, concordam que atrair data centers é essencial para o desenvolvimento tecnológico do país. No entanto, cada um apresenta nuances diferentes sobre como alcançar esse objetivo.
- Redução de impostos sobre equipamentos e energia por meio do regime Redata, que oferece incentivos fiscais condicionados a contrapartidas socioambientais.
- Investimento em energia renovável – principalmente eólica e solar – para garantir que a matriz energética dos novos centros seja limpa e de baixo custo.
- Criação de zonas econômicas especiais em estados com infraestrutura de fibra óptica já existente, facilitando a conexão internacional.
- Capacitação de mão‑de‑obra local por meio de programas de formação em ciência de dados, engenharia de redes e manutenção de servidores.
Marina Garrote, diretora de operações do consultoria Reglab, destaca que o Redata pode ser o diferencial competitivo do Brasil frente aos EUA. “Se a expansão for baseada em energia eólica e solar, o custo social será bem menor do que o observado nos Estados Unidos, onde a energia vem de fontes fósseis”, explica.
Além dos incentivos fiscais, os candidatos propõem a criação de um marco regulatório que exija relatórios de consumo energético e planos de mitigação de impactos hídricos. Essa medida visa evitar surpresas como as que ocorreram em cidades americanas, onde a falta de transparência gerou desconfiança.
Outro ponto recorrente nas propostas é a produção nacional de componentes críticos, como chips de IA e servidores de alta densidade. A fabricação local reduz a dependência de importações e cria uma cadeia de valor que pode gerar exportações nos próximos anos.
Em síntese, a estratégia brasileira combina vantagens competitivas – matriz renovável, incentivos fiscais e potencial de produção local – com aprendizados dos protestos norte‑americanos, buscando um modelo de crescimento sustentável e socialmente aceito.








