O debate sobre o futuro da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ganhou força nas discussões eleitorais de 2026, quando candidatos à Presidência apresentaram diferentes visões sobre o modelo de carteira assinada no Brasil. Em meio a mudanças tecnológicas e ao crescimento do trabalho remoto, a questão se tornou central para milhões de trabalhadores que buscam segurança e, ao mesmo tempo, maior flexibilidade. O cenário atual reflete uma tensão entre a tradição de direitos garantidos e a pressão por adaptações ao novo panorama econômico.
O legado da CLT e sua evolução histórica
Instituída em 1943 durante o governo de Getúlio Vargas, a CLT foi criada para regulamentar as relações entre patrões e empregados em um Brasil que iniciava sua industrialização. Ao longo das décadas, a legislação incorporou direitos fundamentais como férias remuneradas, 13º salário, FGTS, licença-maternidade e limites de jornada, transformando a carteira assinada em símbolo de estabilidade.
Essas garantias foram consolidadas em um momento de forte intervenção estatal, quando a proteção ao trabalhador era vista como motor de desenvolvimento social. As gerações posteriores passaram a considerar a assinatura da carteira como porta de entrada para benefícios que asseguravam dignidade e previsibilidade financeira.
Entretanto, a partir dos anos 2000, a participação da indústria na economia começou a declinar, enquanto o setor de serviços e a economia digital ganharam protagonismo. Esse deslocamento trouxe novas formas de contratação, como o trabalho por pessoa jurídica (PJ), o microempreendedor individual (MEI) e a intermediação de plataformas digitais.
Desafios do mercado de trabalho contemporâneo
O advento da internet e a popularização dos aplicativos criaram um ecossistema no qual milhões de brasileiros trabalham como freelancers, entregadores ou motoristas de plataformas. Essa realidade desafia a lógica da CLT, que foi concebida para relações de emprego tradicionais, com vínculo formal e jornada fixa.
Jovens, especialmente, enxergam o modelo de carteira assinada como um obstáculo à autonomia e à possibilidade de conciliar múltiplas fontes de renda. Pesquisadores como Ricardo Antunes apontam que a experiência de gerações anteriores, marcada por jornadas exaustivas e pouca mobilidade social, alimenta um desejo de ruptura com o modelo antigo.
A cientista política Mayra Goulart destaca que, embora haja uma busca por liberdade para organizar o próprio tempo, a falta de poder de negociação coloca muitos trabalhadores em situação de vulnerabilidade. A autoexploração, muitas vezes celebrada como virtude moral, pode levar a jornadas sem descanso e ausência de direitos básicos.
Esses fatores geram um dilema: como garantir proteção social sem sufocar a inovação e a flexibilidade exigidas pelo novo cenário? A resposta passa por repensar a estrutura normativa, equilibrando segurança e adaptabilidade.
Propostas dos candidatos e possíveis caminhos
Os principais candidatos à Presidência apresentaram posições distintas, refletindo diferentes interpretações das transformações do mercado. A seguir, resumimos as principais linhas de pensamento, agrupadas por categorias de intervenção.
- Manutenção e fortalecimento da CLT: Dois candidatos defendem a preservação do modelo atual, propondo apenas ajustes pontuais, como a ampliação do salário mínimo e a modernização dos processos de homologação de acordos coletivos.
- Flexibilização parcial: Três concorrentes sugerem a criação de regimes híbridos, permitindo que empresas e trabalhadores negociem cláusulas específicas, como jornada reduzida ou teletrabalho, sem abrir mão dos direitos essenciais.
- Regimes alternativos de contratação: Dois candidatos propõem a institucionalização de contratos de prestação de serviços para categorias que já operam como PJ ou MEI, com a criação de um fundo de seguridade social para esses trabalhadores.
- Substituição total da CLT: Um candidato apresenta a ideia de um novo marco legal, baseado em princípios de liberdade contratual plena, onde a negociação individual substituiria as normas coletivas.
Além das categorias acima, há propostas específicas que merecem destaque. Por exemplo, a proposta de criação de um “Banco de Direitos Trabalhistas” visa acumular benefícios como férias e 13º salário em um fundo individual, que poderia ser sacado em caso de desemprego ou necessidade de capital.
Outro ponto recorrente é a digitalização da carteira de trabalho, que já está em fase de implementação, mas que poderia ser expandida para permitir o registro automático de jornadas, pagamentos e benefícios, reduzindo a burocracia e aumentando a transparência.
Por fim, especialistas alertam que qualquer mudança deve ser acompanhada de políticas públicas de qualificação profissional, para que trabalhadores deslocados por novos modelos encontrem oportunidades em setores emergentes.








