A Polícia Federal, ao analisar um HD apreendido na Operação Compliance Zero, constatou a existência de um complexo sistema interno que criava documentos falsos para validar bilhões em créditos vendidos ao Banco de Brasília (BRB). A descoberta ocorreu em novembro de 2025, após buscas no Banco Master, localizado em Brasília. O material encontrado detalha passo a passo como funcionários do banco manipulavam dados de clientes para gerar contratos inexistentes.
Operação Compliance Zero e a apreensão do HD
A primeira fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada em novembro de 2025, com mandados de busca e apreensão no Banco Master. Durante as diligências, a PF não conseguiu copiar todo o volume de dados armazenado nos servidores, o que motivou a solicitação posterior do acervo ao liquidante da instituição.
Em 27 de novembro de 2025, o HD corporativo foi entregue à corporação e encaminhado para perícia técnica. Os peritos identificaram, entre milhares de arquivos, uma apresentação de PowerPoint que descrevia um fluxo organizado de produção de documentos financeiros.
Como funcionava a suposta “fábrica de documentos”
Segundo o relatório da PF, o processo começava com a extração de informações de clientes do programa CredCesta diretamente dos sistemas internos do banco. Funcionários com acesso privilegiado coletavam dados pessoais, valores de empréstimos e contratos vigentes.
Essas informações eram então inseridas em softwares desenvolvidos especificamente para gerar documentos em massa. O sistema criava, de forma automatizada, Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), Termos de Consentimento e Procurações, simulando operações que nunca foram efetivamente realizadas.
O fluxo incluía ainda a remoção de datas e páginas de assinatura dos documentos originais, bem como a solicitação de comprovantes de transferências que não continham dados de rastreabilidade. Essa etapa visava conferir aparência de legitimidade aos papéis produzidos.
- Extração de dados de clientes CredCesta
- Processamento em softwares internos
- Geração de CCBs, Termos de Consentimento e Procurações
- Alteração de datas e remoção de assinaturas
- Solicitação de comprovantes sem rastreio
Todo o procedimento contava com a participação de funcionários de diferentes áreas, configurando uma operação coordenada e sistematizada dentro da própria estrutura do Banco Master.
Os documentos falsificados e sua função na cessão de crédito
Entre dezembro de 2024 e maio de 2025, o Master e a empresa de fachada Tirreno Consultoria firmaram 28 instrumentos de cessão de crédito consignado, totalizando R$ 7,15 bilhões. A Tirreno, sem funcionários ou capacidade operacional, servia apenas como um canal para mascarar a ausência de lastro nas operações.
A perícia constatou que não houve nenhuma liquidação financeira real nem transferência de recursos para contas de livre movimentação da Tirreno. A única conta aberta pela empresa permaneceu inativa, mantendo os valores restritos a lançamentos internos na conta gerencial do Banco Master.
Mesmo assim, o BRB aceitou os créditos, baseando‑se nos documentos produzidos artificialmente. As CCBs apresentavam valores e prazos, enquanto os Termos de Consentimento e as Procurações conferiam supostas autorizações para a transferência dos direitos creditórios.
Essa estratégia permitia ao Master vender créditos que, na prática, não existiam, gerando receitas fictícias e enganando o comprador.
Repercussões e próximos passos da investigação
A revelação da “fábrica de documentos” eleva a tensão entre as partes envolvidas e indica a possibilidade de novos desdobramentos judiciais. A PF já indicou que continuará analisando os registros eletrônicos para identificar outros responsáveis e possíveis beneficiários do esquema.
O Banco Master enfrenta processos civis e criminais, além de possíveis sanções regulatórias. O BRB, por sua vez, está sob investigação para verificar se houve conivência ou negligência ao aceitar os créditos sem a devida diligência.
Especialistas em compliance alertam que o caso evidencia fragilidades nos controles internos de instituições financeiras, especialmente na gestão de dados de clientes e na validação de documentos de crédito.
Enquanto as investigações avançam, o mercado acompanha de perto as decisões judiciais, que podem definir novos parâmetros para a prevenção de fraudes semelhantes no setor bancário brasileiro.








