Um vídeo de segurança gravado no aeroporto Santos‑Dumont, no Rio de Janeiro, mostrou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, desembarcando de um jatinho pertencente ao ex‑banqueiro Daniel Vorcaro. A gravação, datada de 22 de agosto de 2025, trouxe à tona novas dúvidas sobre a relação entre o magistrado e o empresário, já investigado pela Polícia Federal. A divulgação foi feita pelo jornal O Globo, que destacou a presença da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, ao lado dele.
Detalhes do vídeo e do voo
Na filmagem, Moraes e sua esposa são vistos saindo de um avião Legacy, identificado pelo registro PP‑NLR, que pertence a uma empresa controlada por Vorcaro. O jatinho foi utilizado para um deslocamento que, segundo o escritório de Viviane, teria sido pago como serviço de táxi aéreo. O registro de data e hora da câmera indica claramente o dia 22 de agosto de 2025, coincidindo com a agenda pública do ministro naquele período.
O Legacy é um modelo de jato executivo de médio porte, com capacidade para até oito passageiros, frequentemente usado por empresários e políticos para viagens de curta e média distância. A escolha desse modelo levanta questões sobre a conveniência de se recorrer a aeronaves privadas quando há opções de táxi aéreo disponíveis.
- Data da gravação: 22/08/2025
- Aeronave: Embraer Legacy 600
- Registro: PP‑NLR
- Proprietário: empresa vinculada a Daniel Vorcaro
Reações do gabinete e do escritório
Desde o início de abril, o gabinete de Alexandre de Moraes tem negado publicamente que o ministro tenha utilizado qualquer jatinho de propriedade de Vorcaro. Em nota, o escritório Barci de Moraes afirmou que contrata serviços de táxi aéreo de diversas empresas, entre elas a Prime Aviation, e que nenhum voo contou com a presença de Daniel Vorcaro ou de representantes de suas empresas.
O mesmo comunicado ressaltou que a escolha das aeronaves segue critérios operacionais e que não há vínculo pessoal com os proprietários das aeronaves. Além disso, o escritório esclareceu que não possui contrato de prestação de serviços advocatícios com a Prime Aviation, nem adquiriu cotas da empresa.
Entretanto, a narrativa do gabinete contrasta com gravações de conversas obtidas pela Polícia Federal, nas quais Marcos Matta, dono da PrimeYou – empresa responsável por administrar o jatinho – afirma que o casal já utilizou aviões e helicópteros sem cobrança, devido a um ajuste contratual.
Investigações da Polícia Federal
A Polícia Federal vem acompanhando de perto as transações entre o escritório Barci de Moraes e o Banco Master, empresa vinculada a Vorcaro. O banco teria firmado um contrato de 131 milhões de reais com o escritório, e um acordo adicional de 50 milhões de reais teria sido negociado, incluindo pagamentos em forma de viagens aéreas.
Em diálogos interceptados, datados de 16 de junho do ano passado, Marcos Matta relata que o casal utilizou serviços de aviação sem custo, após a mudança de contrato para a empresa Lex, controlada pelos próprios Barci. Essa informação sugere que os pagamentos em dinheiro podem ter sido substituídos por benefícios em espécie, como passagens aéreas.
Os investigadores ainda buscam esclarecer se houve alguma forma de favorecimento ou troca de favores entre o ministro e o ex‑banqueiro, que atualmente cumpre pena na chamada “Papudinha”. O caso ganha ainda mais relevância com a pauta prevista para o plenário do STF, que deveria decidir sobre a abertura de investigação formal contra Moraes.
Implicações políticas e judiciais
O plenário do Supremo Tribunal Federal, marcado para a semana passada, ficou suspenso após um pedido de vistas do ministro Flávio Dino, que adiou a deliberação sobre a abertura de investigação. O prazo para que o plenário volte a analisar o caso é de até 90 dias, conforme o regimento interno da Corte.
Especialistas em direito constitucional apontam que a decisão do STF pode estabelecer um precedente importante quanto à responsabilidade de magistrados por supostos benefícios indevidos. Caso a investigação seja aberta, o processo pode envolver não apenas o ministro, mas também a rede de empresas que fornecem serviços de aviação ao seu escritório.
Além do impacto institucional, o caso tem repercussões na esfera pública, alimentando debates sobre a transparência e a ética de autoridades públicas. Organizações da sociedade civil já se manifestaram pedindo maior rigor nas apurações e a adoção de mecanismos de controle mais efetivos.
Enquanto isso, o Ministério da Justiça ainda não se pronunciou oficialmente sobre o vídeo, mas fontes próximas ao caso indicam que o órgão acompanha de perto as investigações da PF e pode intervir caso haja indícios de crime.
O cenário político permanece tenso, com a oposição acusando o governo de tentar proteger o ministro, enquanto aliados defendem que as acusações são parte de uma campanha de desinformação. O desfecho desse episódio ainda pode influenciar a confiança da população nas instituições judiciais brasileiras.








