Neste domingo, 20 de setembro, cerca de 3,8 milhões de eleitores em Berlim e no estado de Mecklemburgo‑Pomerânia Ocidental vão às urnas, numa disputa que pode redefinir o futuro político de Friedrich Merz, atual chanceler da Alemanha. Embora Merz não esteja diretamente na cédula, o desempenho da AfD, partido de extrema‑direita, e da CDU, seu principal aliado, determinará se o governo conservador conseguirá se manter no poder.
O cenário nacional e a força da AfD
A AfD (Alternativa para a Alemanha) vem consolidando uma trajetória de crescimento acelerado nas últimas eleições regionais, alcançando um marco histórico em Saxônia‑Anhalt ao obter 44% dos votos, o que a aproximou de governar sozinha um antigo estado comunista. Esse resultado surpreendente reforçou a percepção de que o partido pode romper o tabu de ocupar o governo de um estado alemão desde a queda do regime nazista.
Com um discurso marcado pela oposição à imigração, críticas ao estabelecimento da União Europeia e uma postura de aproximação ao presidente russo Vladimir Putin, a AfD tem conseguido atrair eleitores desencantados com as políticas tradicionais. A retórica anti‑establishment, combinada com promessas de segurança nacional e defesa dos valores conservadores, tem sido o principal motor da sua popularidade recente.
Seus líderes afirmam que a meta é tornar‑se a primeira força de extrema‑direita a liderar um governo estadual, algo que, segundo analistas, pode abrir precedentes para futuras alianças em nível federal. O partido também tem buscado ampliar sua presença em áreas urbanas, onde historicamente enfrentava resistência, ao adaptar sua mensagem a questões locais como moradia e segurança pública.
Os desafios de Friedrich Merz e a posição da CDU
Friedrich Merz, à frente da CDU desde 2021, registra uma aprovação pessoal de apenas 10%, um dos índices mais baixos da história recente dos chanceleres alemães. Em seu discurso recente, ele ressaltou a necessidade de cumprir o mandato de quatro anos prometido aos eleitores, enfatizando reformas econômicas e sociais para tirar o país de um período de dificuldades.
Para demonstrar a gravidade da situação, Merz cancelou sua participação na Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque, alegando que sua presença era indispensável em Berlim durante a votação. Essa decisão foi interpretada como um sinal de que o governo sente a pressão de possíveis perdas eleitorais e de um eventual processo de sucessão dentro da própria CDU.
Além da ameaça da AfD, a CDU também enfrenta concorrência da esquerda radical, representada pelo Die Linke, que tem ganhado força em Berlim ao propor a desapropriação de grandes proprietários de imóveis e ao colocar o alto custo dos aluguéis como prioridade de debate. Essa fragmentação do eleitorado tradicionalmente conservador coloca Merz em uma posição delicada para manter a coesão interna do partido.
A corrida em Berlim e em Mecklemburgo‑Pomerânia Ocidental
Em Berlim, a capital mais cosmopolita da Alemanha, a disputa está especialmente acirrada. A CDU busca retomar a liderança, mas tem de competir com o Die Linke, que já ocupa o primeiro lugar nas pesquisas locais, e com a AfD, que surpreende ao aparecer entre as três primeiras posições em alguns distritos.
Já em Mecklemburgo‑Pomerânia Ocidental, um estado costeiro no Báltico, a dinâmica é diferente. A CDU ainda lidera, mas a margem de vantagem diminuiu significativamente diante do avanço da AfD, que tem capitalizado o descontentamento de eleitores rurais com as políticas de imigração e com a percepção de abandono econômico.
- CDU: busca manter a maioria e garantir a continuidade das reformas de Merz.
- AfD: tenta ampliar sua base, mirando eleitores insatisfeitos com a União Democrata‑Cristã.
- Die Linke: aposta em propostas de controle de aluguéis e desapropriação de grandes imóveis.
Os eleitores de ambos os estados vão às urnas das 8h às 18h, horário local, e o resultado será acompanhado em tempo real pelos principais veículos de comunicação europeus, dada a sua relevância para o futuro da coalizão de centro‑direita liderada por Merz.
Possíveis desdobramentos e cenários pós‑eleição
Se a AfD conseguir superar a CDU em um desses estados, o governo federal de Merz pode enfrentar pressões internas para abrir negociações de coalizão com o partido de extrema‑direita, algo que até então era considerado inviável. Tal cenário poderia desencadear um processo de sucessão dentro da CDU, com possíveis candidaturas de figuras mais alinhadas ao discurso conservador tradicional.
Por outro lado, uma vitória clara da CDU, ainda que estreita, poderia reforçar a posição de Merz e permitir a continuidade das reformas econômicas anunciadas, como a redução de impostos sobre empresas e a ampliação de programas de apoio ao setor industrial.
Em caso de resultados extremamente fragmentados, especialistas apontam para a possibilidade de eleições antecipadas, embora considerem esse desfecho pouco provável no curto prazo. O que se confirma, porém, é que o clima de alta tensão política e a necessidade de respostas rápidas aos desafios sociais, como a crise de moradia em Berlim, continuarão a influenciar o debate público nas próximas semanas.








