Em entrevista ao VEJA em Foco, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, explicou nesta terça-feira, 8 de setembro, os limites das tratativas comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Ele destacou que o país não abrirá mão de pilares estratégicos como o Pix, ao mesmo tempo em que busca avançar em outras áreas de interesse mútuo.
Limites inegociáveis da agenda brasileira
Segundo o ministro, o Pix representa a soberania digital do Brasil e, por isso, não está aberto a concessões. “O Brasil não pode abrir mão do Pix”, afirmou, ressaltando que a ferramenta já está integrada a milhões de transações diárias e a seu abandono traria instabilidade ao sistema financeiro nacional.
Além do Pix, o governo reforçou a importância dos mecanismos de verificação e rastreabilidade do desmatamento. Esses instrumentos, criados para monitorar a degradação ambiental, são vistos como essenciais para a proteção da Amazônia e para a credibilidade internacional do país.
Esses temas, explicou Elias Rosa, “não estão em discussão” nas mesas de negociação. O ministro deixou claro que há linhas vermelhas que o Brasil não atravessará, independentemente da pressão externa.
Tarifas sobre etanol e açúcar: um pacote inseparável
O comércio de etanol foi apontado como outro ponto sensível. O ministro ressaltou que a discussão sobre o combustível não pode ser feita de forma isolada, devendo ser tratada em conjunto com o açúcar, principal produto de exportação agroindustrial do país.
Ele lembrou que, recentemente, o etanol brasileiro passou a enfrentar uma tarifa de 40% nos Estados Unidos, enquanto o açúcar está sujeito a uma sobretaxa que ronda 100%. Essas medidas aumentam a competitividade dos produtos americanos e afetam diretamente a balança comercial brasileira.
Para contornar esse cenário, o governo brasileiro pretende negociar a retirada dessas tarifas, argumentando que a imposição de impostos tão elevados viola princípios de livre comércio e prejudica produtores nacionais.
Importância das relações comerciais com os EUA
Apesar das divergências, Elias Rosa defendeu a continuidade das negociações, destacando o papel histórico dos investimentos americanos no Brasil. Ele apontou que empresas dos Estados Unidos atuam no país há mais de um século, gerando milhares de empregos, transferindo tecnologia e impulsionando a inovação.
O ministro enfatizou que a relação comercial não pode ser encarada como uma troca unilateral, mas como uma parceria estratégica que beneficia ambas as nações. “Não precisa entregar a carteira. Não é como um acordo sem limite. Um acordo sem teto não é possível”, disse, reforçando a necessidade de limites claros.
Ele ainda ressaltou que, embora o Brasil busque a retirada das tarifas já impostas, a estratégia de negociação mudou após a conversa entre o presidente Lula e o ex‑presidente Donald Trump. Antes, o objetivo era evitar novas tarifas; agora, a prioridade é reverter as que já foram aplicadas.
Próximos passos e expectativas
- Revisão das tarifas: O governo pretende apresentar argumentos técnicos e econômicos para convencer a administração americana a suspender ou reduzir as tarifas sobre etanol e açúcar.
- Fortalecimento do Pix: Continuar a expandir a adoção do sistema de pagamentos instantâneos, garantindo sua independência e segurança.
- Proteção ambiental: Manter e aprimorar os mecanismos de rastreabilidade do desmatamento, demonstrando compromisso com a sustentabilidade.
- Diálogo permanente: Manter canais de comunicação abertos com Washington para tratar de questões comerciais, tecnológicas e de investimento.
Em síntese, o ministro Márcio Elias Rosa deixou claro que o Brasil seguirá firme em suas prioridades estratégicas, sem abrir mão de instrumentos que garantem soberania financeira e ambiental, ao mesmo tempo em que busca soluções negociadas para aliviar as barreiras comerciais que afetam setores-chave da economia.








