Em El Salvador, mães ainda não recebem notícias de seus filhos presos desde a aplicação do regime de exceção decretado por Nayib Bukele em abril de 2022, quando o jovem José Duval Mata Alvarado foi detido na comunidade rural de La Noria, em Jiquilisco. A detenção ocorreu enquanto ele retornava ao lar após um dia de trabalho como motorista de trator, e até hoje a família permanece sem informações concretas sobre seu paradeiro.
O regime de exceção e sua expansão
O decreto de emergência, anunciado em março de 2022, suspendeu uma série de direitos constitucionais, como o habeas corpus e o direito à defesa prévia. Essa medida foi apresentada pelo governo como a principal ferramenta para desarticular as gangues que há décadas controlavam grandes áreas do país.
Apesar de ter sido anunciado como temporário, o regime tem sido prorrogado mensalmente por mais de quatro anos. Organizações de direitos humanos, tanto nacionais quanto internacionais, denunciam que a extensão indefinida gera detenções arbitrárias, muitas vezes sem ordem judicial ou prova robusta.
- Suspensão do habeas corpus
- Restrição ao direito de reunião
- Limitação ao acesso a advogados
- Possibilidade de prisão preventiva prolongada
Essas restrições criam um ambiente de insegurança jurídica que afeta não só suspeitos de envolvimento com gangues, mas também cidadãos comuns que podem ser confundidos ou denunciados por vizinhos. O cenário tem provocado um aumento significativo no número de pessoas detidas em instalações como o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot).
O caso de José Duval e a luta das mães
Marcela Alvarado, mãe de José Duval Mata Alvarado, relata que seu filho foi abordado por vários soldados na manhã de 18 de abril de 2022. Apesar de garantir que seu filho era inocente e trabalhava apenas como motorista de trator, ele foi acusado de “associações ilícidas”, crime que tem sido usado como justificativa para muitas prisões sob o regime de exceção.
Desde então, Marcela tem feito visitas regulares à Promotoria e deixado pacotes de alimentos e itens de higiene na penitenciária, na esperança de que seu filho receba algum conforto. Cada visita termina com a mesma resposta fria dos funcionários: José ainda está detido no Cecot.
Dois juízes emitiram ordens de libertação imediata para José, mas as decisões nunca foram cumpridas. A BBC News Mundo conseguiu acesso a essas decisões judiciais, mas a burocracia e a resistência das autoridades prisionais impediram sua execução.
A incerteza sobre o paradeiro de seu filho tem causado um sofrimento psicológico profundo. Marcela descreve noites de insônia, ansiedade constante e o medo de que seu filho possa estar em condições degradantes dentro da megaprisão.
Além de Marcela, centenas de outras mães compartilham histórias semelhantes. Elas se reúnem nas portas das prisões, nos corredores dos tribunais e nas salas de espera das delegacias, formando redes de apoio que se tornaram essenciais para a sobrevivência emocional.
O movimento Mulheres pela Liberdade
O coletivo Mulheres pela Liberdade nasceu de encontros espontâneos entre mães que buscavam informações sobre seus filhos. Inicialmente concentrado na região do Baixo Lempa, no sul de El Salvador, o grupo rapidamente se expandiu para todo o território nacional.
Hoje, o movimento reúne centenas de mulheres de diferentes idades, muitas delas idosas, que compartilham recursos financeiros, informações sobre processos judiciais e estratégias para lidar com a burocracia. O apoio mútuo tem sido fundamental para que elas continuem lutando, apesar da sensação de impotência diante do Estado.
O grupo tem como principais reivindicações o direito à informação clara sobre a localização dos presos, visitas familiares regulares e julgamentos justos e individuais. Eles denunciam o silêncio institucional que, segundo as ativistas, alimenta a impunidade e a violação dos direitos humanos.
Liliana Urías, uma das fundadoras do coletivo, explica que a força do movimento está na solidariedade: “Quando nos reunimos, sentimos que a dor não é mais de uma só, mas do grupo. Isso nos dá energia para continuar”.
Além das reuniões presenciais, o grupo utiliza redes sociais para divulgar casos, organizar protestos e pressionar autoridades. Eles também mantêm contato direto com organizações internacionais de direitos humanos, buscando apoio e visibilidade para a situação.
O movimento tem conseguido alguns avanços, como a pressão para que juízes emitam decisões de libertação e a abertura de canais de comunicação mais transparentes com alguns departamentos penitenciários. Contudo, a maioria dos pedidos ainda encontra resistência, e muitas mães continuam sem saber se seus filhos ainda estão vivos.
O caso de Merlon Urías, irmão de Liliana, ilustra a gravidade da situação. Ele foi visto pela última vez em 30 de março de 2022, três dias após a aprovação do regime de exceção. Trabalhava na produção de cana-de-açúcar, tinha 19 anos e deixava uma filha de um ano de idade.
Essas histórias pessoais revelam o impacto intergeracional do regime de exceção: filhos pequenos ficam sem pai, mães ficam sem esperança e a sociedade inteira sente o peso de um sistema que privilegia a segurança estatal em detrimento dos direitos individuais.
Apesar das dificuldades, as mulheres do coletivo permanecem firmes. Elas organizam marchas, enviam cartas abertas ao presidente Bukele e solicitam auditorias independentes nas prisões. Cada ação, por menor que pareça, reforça a mensagem de que a luta por justiça não pode ser silenciada.
O futuro do regime de exceção ainda é incerto. Enquanto o governo de Bukele afirma que a medida tem sido essencial para reduzir a violência, críticos apontam que a falta de transparência e o aumento das detenções arbitrárias podem gerar mais instabilidade social a longo prazo.
Para as mães que buscam seus filhos, a espera continua. Cada dia sem notícias se transforma em um peso emocional que se acumula, mas a rede de apoio criada pelo Mulheres pela Liberdade oferece uma luz de esperança em meio à escuridão.








