Maricarmen Abascal, de 87 anos, faleceu nesta quarta‑feira, 7 de novembro, enquanto permanecia internada no Hospital Gregorio Marañón, em Madrid. A idosa havia sido forçada a deixar o apartamento onde vivia há 71 anos, em setembro, e se tornou referência nas manifestações contra a crise habitacional na Espanha.
Despedida de uma símbolo da luta habitacional
O Sindicato dos Inquilinos da Espanha confirmou o óbito, embora a causa exata não tenha sido divulgada. Maricarmen utilizava cadeira de rodas e dependia de auxílio diário para tarefas básicas, como alimentação. Nos últimos meses, sua saúde deteriorou-se rapidamente, com perda de massa muscular e dificuldade para se alimentar sozinha.
Em comunicado, o sindicato lamentou a morte e destacou o “exemplo de luta” da senhora, ressaltando que seu despejo gerou uma onda de reações que marcaram um antes e um depois na história do país.
O despejo que desencadeou protestos nacionais
O apartamento, localizado no bairro do Retiro, foi adquirido por um fundo de investimento que tentou elevar o aluguel de cerca de 500 para 1.650 euros mensais. Maricarmen recebeu apenas 30 minutos para abandonar o imóvel, levando apenas itens essenciais.
A retirada aconteceu sob forte presença de manifestantes. A idosa foi carregada em maca até uma ambulância, acompanhada por assistentes sociais. Segundo sua advogada, havia um pedido judicial pendente e até uma oferta anônima para cobrir o aluguel, mas o proprietário recusou assinar um novo contrato.
O episódio rapidamente se transformou em símbolo da crise habitacional que afeta grandes cidades espanholas, marcada por alta de aluguéis, gentrificação e escassez de moradias acessíveis.
Repercussões políticas e a crise de moradia na Espanha
Logo após o falecimento, os principais sindicatos convocaram uma greve geral para 11 de novembro, menos de três semanas antes das eleições antecipadas. A mobilização tinha como bandeira “melhores salários” e “moradia digna”.
O primeiro‑ministro Pedro Sánchez havia apresentado medidas emergenciais para conter os altos aluguéis, mas ambas foram rejeitadas pelo Congresso. O primeiro projeto visava suspender despejos de inquilinos vulneráveis até 2030, prorrogar contratos até 2028, elevar impostos sobre apartamentos turísticos e limitar a compra de residências por fundos de investimento.
O segundo projeto, que propunha renovação automática de contratos de aluguel, também foi rejeitado. A derrota parlamentar aumentou a pressão sobre o governo, que já enfrentava protestos massivos em todo o país.
Nas ruas de Madrid, o governo estimou a participação de 70 mil pessoas, enquanto os organizadores alegaram cerca de 500 mil manifestantes. As reivindicações incluíam a redução dos aluguéis, proteção contra despejos e maior controle sobre fundos de investimento.
- Redução dos aluguéis
- Proteção contra despejos
- Limitação da compra de imóveis por fundos
- Maior fiscalização de apartamentos turísticos
Dados alarmantes do mercado imobiliário
O Instituto Nacional de Estatística da Espanha revelou que os preços de compra de moradias subiram 12,2% no segundo trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior. Os imóveis usados registraram alta de 12,9%, enquanto os novos aumentaram 7,4%.
Comparado aos três primeiros meses de 2026, o aumento geral foi de 3,4%. Esses números refletem a pressão sobre o mercado de aluguel, já que os indicadores de preço de venda influenciam diretamente os valores cobrados pelos locatários.
A situação de Maricarmen Abascal ilustra, de forma dramática, como a combinação de políticas de mercado e falta de proteção legal pode transformar um idoso vulnerável em alvo de despejo, gerando indignação coletiva e demandando respostas urgentes das autoridades.
Enquanto o debate legislativo segue estagnado, a memória da idosa permanece viva nas ruas, nas redes sociais e nos corredores dos sindicatos, que continuam a pressionar por reformas que garantam moradia digna a todos os cidadãos, independentemente da idade ou condição econômica.








