Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) mostrou que caminhar diariamente pode controlar os sintomas da asma com a mesma eficácia de treinos intensos na academia. A pesquisa, publicada na revista Pulmonology, avaliou adultos entre 18 e 65 anos ao longo de oito e dezesseis semanas. Os resultados apontam novas possibilidades de tratamento para os cerca de 10% da população brasileira que convive com a doença.
Benefícios da atividade física no manejo da asma
Desde a década de 1990, especialistas já recomendavam exercícios como coadjuvante ao uso de medicamentos para asma. A prática regular ajuda a melhorar a capacidade pulmonar, reduzir a inflamação das vias aéreas e aumentar a tolerância ao esforço físico.
Além dos efeitos fisiológicos, a atividade física favorece a saúde mental, diminuindo ansiedade e estresse, fatores que podem desencadear crises asmáticas. Por isso, médicos e fisioterapeutas costumam incluir programas de exercício nos protocolos de tratamento.
Como o estudo comparou caminhada e treino aeróbico
Os pesquisadores recrutaram 52 voluntários com diagnóstico de asma moderada a grave, todos previamente inativos – ou seja, praticavam menos de 150 minutos de atividade moderada ou vigorosa por semana. Os participantes foram distribuídos em dois grupos: 27 seguiram um programa de treinamento aeróbico em esteira e 25 receberam intervenção comportamental para aumentar a atividade cotidiana.
No grupo de treinamento aeróbico, as sessões ocorreram duas vezes por semana, com 45 minutos cada: 5 minutos de aquecimento, 35 minutos de corrida ou caminhada rápida e 5 minutos de desaquecimento. A velocidade e a inclinação da esteira eram ajustadas conforme a resposta individual.
A intervenção comportamental focou na caminhada diária e no aumento de passos ao longo do dia. Cada participante recebeu um relógio inteligente que registrava a quantidade de passos e emitia alerta após 60 minutos de inatividade. Em encontros semanais de até 90 minutos no hospital, a equipe definia metas personalizadas usando entrevista motivacional.
- Objetivo: elevar a atividade física diária.
- Ferramenta: relógio inteligente com alerta de sedentarismo.
- Suporte: sessões semanais de acompanhamento e redefinição de metas.
Ambos os grupos continuaram a usar os medicamentos habituais, incluindo altas doses de corticosteroides inalatórios, garantindo que os efeitos observados fossem atribuídos às intervenções de exercício.
Resultados de curto e médio prazo
Após oito semanas, os dois grupos apresentaram melhora significativa no controle da asma, medida por questionários de qualidade de vida e escore de sintomas. Essa melhoria se manteve ao final de 16 semanas de acompanhamento.
No grupo de intervenção comportamental, 88% dos participantes registraram melhora clinicamente relevante, contra 78% no grupo de treinamento aeróbico. Quatro meses depois, os índices foram quase idênticos: 64% versus 63%.
Além do controle dos sintomas, os participantes aumentaram a capacidade física. No grupo aeróbico, a velocidade média na esteira subiu de 4,4 km/h para 6,1 km/h, representando um acréscimo de 40%. No grupo de caminhada, o número médio diário de passos aumentou de 3.200 para 7.500.
Esses dados sugerem que a escolha entre um programa estruturado de academia e uma estratégia baseada em caminhadas pode ser guiada pelas preferências individuais, disponibilidade de recursos e contexto de vida do paciente.
Implicações para pacientes e profissionais de saúde
Para quem tem asma, a mensagem é clara: não é imprescindível investir tempo em academias caras ou seguir rotinas extenuantes. Uma caminhada de 30 a 60 minutos, distribuída ao longo do dia, pode gerar benefícios comparáveis.
Profissionais de saúde devem considerar a inclusão de metas de passos diários nas prescrições de tratamento, utilizando dispositivos vestíveis para monitoramento e motivação. A entrevista motivacional mostrou-se eficaz para estabelecer compromissos realistas e sustentáveis.
Além disso, o estudo reforça a importância de abordagens multidisciplinares, envolvendo médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos, para garantir que o paciente tenha suporte em todas as frentes do manejo da doença.
Em termos de políticas públicas, os resultados podem incentivar a criação de programas comunitários de caminhada, especialmente em áreas de baixa renda, onde o acesso a academias é limitado. Incentivos como trilhas seguras, iluminação pública e campanhas de conscientização podem ampliar o alcance desses benefícios.
Por fim, a pesquisa abre caminho para novos estudos que explorem combinações de intervenções, como treinamento de força associado à caminhada, ou a eficácia de aplicativos móveis para monitoramento de atividade física em pacientes asmáticos.








