Em 2024, a Ford apresentou um novo veículo militar baseado na linha Ranger, destinado ao programa de mobilidade leve do Exército britânico. O protótipo foi revelado na fábrica de Dagenham, nos arredores de Londres, e promete transportar duas toneladas e rebocar até quatro toneladas.
Um novo modelo para um mercado tradicionalmente civil
O carro, que lembra uma picape transformada em máquina de guerra, foi desenvolvido em parceria com a General Dynamics e a Ricardo. A joint venture busca conquistar um contrato de 9.000 unidades, a ser entregue ao Ministério da Defesa do Reino Unido ao longo de cinco a sete anos.
Além da capacidade de carga, o veículo incorpora motores a diesel de três litros, produzidos na própria Dagenham. A produção desses motores caiu de 90 mil unidades anuais para cerca de 45 mil nos últimos dez anos, o que torna a nova linha de defesa ainda mais estratégica para a empresa.
História de produção militar da Ford em Dagenham
Durante a Segunda Guerra Mundial, a fábrica de Dagenham foi a maior montadora da Europa. Quando o conflito começou, a produção civil foi interrompida e a planta passou a fabricar exclusivamente equipamentos militares.
Entre 1939 e 1945, foram produzidos 360 mil veículos de apoio ao esforço aliado, além de 34 mil motores Merlin em Manchester, que equiparam os famosos caças Spitfire e Hurricane.
Esses números ainda são lembrados como um marco de adaptação industrial, e hoje a empresa tenta reviver essa capacidade para enfrentar a atual crise do setor.
Desafios da indústria automotiva europeia
Montadoras alemãs, francesas e britânicas enfrentam queda de vendas, concorrência de fabricantes chineses e pressão regulatória. O aumento dos gastos com defesa, impulsionado pela ameaça russa e pela diminuição do apoio dos Estados Unidos, abre uma janela de oportunidade.
Analistas apontam que o rearmamento pode gerar centenas de bilhões em investimentos, beneficiando não só as grandes marcas, mas também toda a cadeia de fornecedores que sofrem com a ociosidade das linhas de produção.
O cenário é descrito como o mais desafiador desde a invenção do automóvel, segundo Lisa Brankin, presidente da Ford no Reino Unido.
Outras montadoras também miram o setor de defesa
Além da Ford, a Renault assinou um acordo com a Thales para produzir drones militares, com meta de mil unidades por mês. O objetivo é usar a capacidade de produção em massa da Renault para contornar as cadeias de suprimentos tradicionais, que costumam ser mais lentas.
A Volkswagen, por sua vez, está vendendo uma fábrica subutilizada em Osnabrück, que será convertida em um polo de produção militar em parceria com empresas de defesa.
- Renault + Thales: drones militares.
- Volkswagen: fábrica de Osnabrück para equipamentos militares.
- Ford + General Dynamics + Ricardo: veículos leves para o exército britânico.
Essas iniciativas mostram que o setor de defesa está se tornando um novo motor de crescimento para a indústria automotiva europeia.
Perspectivas para os próximos anos
Se o contrato militar for garantido, a Ford pode compensar a queda de produção de motores e manter empregos na planta de Dagenham, que ainda conta com cerca de 2.000 trabalhadores.
O sucesso da proposta também pode estimular outras empresas a requalificar suas linhas de montagem, criando um ciclo de investimento que revitaliza a economia regional.
Entretanto, especialistas alertam que a dependência excessiva de pedidos governamentais pode gerar vulnerabilidades, caso as políticas de defesa mudem ou os orçamentos sejam recortados.
Assim, a estratégia de diversificação entre veículos civis e militares parece ser a resposta mais equilibrada para enfrentar a tempestade econômica que assola a Europa.








