Astrônomos detectaram, pela primeira vez, um sinal de rádio proveniente de um planeta fora do Sistema Solar. A descoberta foi anunciada em 2026, após observações realizadas entre 2025 e 2026 com o radiotelescópio MeerKAT, na África do Sul. O sinal foi atribuído ao gigante gasoso Beta Pictoris b, localizado a cerca de 63 anos‑luz da Terra.
A busca pelos sinais de rádio em exoplanetas
Desde o início da década de 1990, a comunidade científica já sabia da existência de exoplanetas, mas a tentativa de ouvir suas emissões de rádio permanecia infrutífera. Radiotelescópios ao redor do mundo vasculharam o céu em busca de ondas que pudessem distinguir a assinatura de um planeta da de sua estrela hospedeira.
Os primeiros esforços focaram em planetas semelhantes a Júpiter, cujas auroras geram emissões de rádio intensas no nosso próprio Sistema Solar. Contudo, a sensibilidade dos instrumentos da época era insuficiente para captar sinais tão fracos a dezenas de anos‑luz de distância.
Com o avanço da tecnologia de antenas e a criação de arranjos interferométricos como o MeerKAT, tornou‑se possível observar frequências mais altas e melhorar a resolução espacial. Essa evolução abriu caminho para a detecção que mudou o panorama da astronomia de rádio.
Beta Pictoris b: o planeta que emitiu o primeiro rádio
Beta Pictoris b foi descoberto em 2008 por imagens diretas obtidas com o Observatório Europeu do Sul. Trata‑se de um gigante gasoso que orbita a estrela Beta Pictoris a aproximadamente 9 unidades astronômicas, numa região onde a radiação estelar é intensa.
Entre 2025 e 2026, a equipe liderada por Kevin Ortiz Ceballos realizou quatro sessões de observação com o MeerKAT. Em todas elas, detectaram uma emissão persistente de rádio, além de breves rajadas que se repetiam de forma regular.
Essas ondas apresentavam forte polarização circular, um padrão típico de emissões produzidas por auroras. O fenômeno ocorre quando partículas energéticas são guiadas por um campo magnético forte até as camadas superiores da atmosfera, gerando radiação de rádio.
Para confirmar que o sinal não vinha da estrela ou de outro planeta do mesmo sistema, os pesquisadores usaram quasares distantes como referências de posição. Essa técnica permitiu localizar a origem do rádio com precisão suficiente para apontar diretamente para Beta Pictoris b, descartando a estrela Beta Pictoris e o planeta vizinho Beta Pictoris c.
- Localização: 63 anos‑luz da Terra;
- Tipo: gigante gasoso;
- Descoberto: 2008;
- Observado por: MeerKAT (África do Sul);
- Frequência máxima detectada: 3,5 GHz.
Implicações da medição do campo magnético
Além de provar a existência de emissões de rádio, a descoberta abriu uma nova janela para medir campos magnéticos de exoplanetas. A frequência máxima de uma emissão auroral está diretamente ligada à intensidade do campo magnético que a gera.
No caso de Beta Pictoris b, os sinais de até 3,5 gigahertz indicam um campo magnético muito mais forte que o de Júpiter, e cerca de 2,5 mil vezes maior que o registrado na superfície terrestre. Esse valor representa um limite inferior; o campo pode ser ainda mais intenso nas regiões internas do planeta.
Esta é a primeira vez que a intensidade de um campo magnético exoplanetário é medida de forma direta, usando o planeta como um “magnetômetro” natural. A capacidade de mapear campos magnéticos à distância tem repercussões importantes para a compreensão da formação planetária, da retenção de atmosferas e da habitabilidade potencial de mundos distantes.
Os autores do estudo, publicados na plataforma arXiv, destacam que a técnica pode ser aplicada a outros sistemas onde radiotelescópios de alta sensibilidade estejam disponíveis. Futuras observações com o Square Kilometre Array (SKA) prometem ampliar ainda mais esse campo de pesquisa.
Em resumo, o sinal de rádio de Beta Pictoris b não representa um contato extraterrestre, mas sim a assinatura de processos magnéticos e atmosféricos semelhantes aos que observamos em Júpiter. A descoberta confirma que planetas fora do nosso Sistema Solar podem gerar auroras radio‑luminosas, oferecendo um novo método de estudo remoto.
Com a confirmação de que exoplanetas podem ser “ouvidos”, a astronomia entra numa nova era, onde ondas de rádio complementam imagens ópticas e espectroscópicas para revelar a natureza dos mundos mais distantes.








