A indústria argentina enfrenta uma profunda crise, com fábricas fechando e milhares de empregos perdidos, ao menos desde junho de 2024, em todo o país, especialmente na região metropolitana de Buenos Aires. O cenário se agravou nas últimas semanas, quando dados oficiais mostraram retração da produção manufatureira e aumento da capacidade ociosa.
Impacto no mercado de trabalho
O fechamento da fábrica de sapatos Kioshi, que antes contava com 120 funcionários, ilustra o ritmo acelerado de desemprego. Hoje, apenas 14 trabalhadores permanecem nas linhas de montagem, enquanto o restante foi dispensado ou migrou para o trabalho informal.
Em Zárate, a antiga unidade da Clariant, especializada em insumos químicos para a indústria petrolífera, encerrou suas atividades em 2025. Dos 42 funcionários demitidos, apenas dois conseguiram recolocação em empregos formais; o restante depende de aplicativos de transporte ou de trabalhos temporários.
Desde a posse de Javier Milei, em dezembro de 2023, cerca de 30 mil empresas fecharam as portas, segundo levantamento do setor produtivo. Esse número inclui pequenas e médias indústrias que não conseguiram se adaptar à nova política de desregulamentação e à “avalanche” de importações baratas.
Os números oficiais apontam que, entre agosto de 2023 e julho de 2024, a indústria argentina perdeu aproximadamente 90 mil empregos. No total, mais de 240 mil postos formais foram extintos no setor privado desde 2023, gerando um aumento significativo da taxa de informalidade.
- Fábrica Kioshi: de 120 para 14 funcionários.
- Clariant: 42 demitidos, apenas 2 recolocados.
- Setor industrial: perda de 90 mil empregos em 11 meses.
Para os trabalhadores que ainda buscam renda, a realidade é dura. Muitos, como o ex-funcionário de 62 anos Miguel Márquez, recorrem a serviços de entrega por aplicativos, enquanto enfrentam salários inferiores ao que recebiam nas fábricas.
Desafios da política econômica de Milei
O governo ultraliberal de Milei celebra a queda da inflação, que chegou a 33,8% em julho de 2024, comparado ao pico de três dígitos no início de seu mandato. No entanto, empresários denunciam que a desregulamentação tem favorecido a concorrência desleal, sobretudo de produtos importados mais baratos.
A União Industrial Argentina (UIA) enviou, na última semana, um pedido de medidas emergenciais ao governo, alertando que a abertura econômica acelerada está gerando perdas de emprego e reduzindo a competitividade das empresas locais.
Entre os principais obstáculos apontados pelos industriais, estão:
- Um “atraso cambiário” que encarece os produtos nacionais em dólares.
- Juros elevados sobre o crédito, dificultando investimentos.
- Uma carga tributária que impede a competição com produtos de países como a China, ainda que a eficiência produtiva seja semelhante.
O ministro da Economia, Luis Caputo, respondeu que sua missão é defender os interesses de 48 milhões de argentinos, não de grupos empresariais específicos. Ainda assim, a percepção entre os industriais é de que o governo está “em uma bolha” e não reconhece a gravidade da situação.
Além da pressão externa, a demanda interna está fraca. A fábrica de cordas para instrumentos da Martin Blust, que emprega dez pessoas, encerra as atividades às sextas-feiras por falta de encomendas, refletindo a baixa capacidade de consumo das famílias.
Embora o presidente afirme que os empregos perdidos em um setor serão compensados por oportunidades em outros, a transição tem se mostrado lenta e incerta para a maioria dos trabalhadores.
Perspectivas e respostas da sociedade
Analistas apontam que a crise industrial pode aprofundar a desigualdade social na Argentina. Enquanto o setor de hidrocarbonetos, mineração e agronegócio registra crescimento, a maioria da população urbana, que depende de empregos industriais, enfrenta desemprego e precarização.
Em meio ao debate, surgem propostas de medidas corretivas, como a criação de linhas de crédito com juros reduzidos para pequenas indústrias, incentivos fiscais temporários e políticas de proteção temporária contra importações de baixo custo.
Organizações sindicais também têm organizado manifestações nas principais cidades, exigindo que o governo reveja as políticas de desregulamentação e ofereça apoio direto aos trabalhadores afetados.
Para os consumidores, a realidade se traduz em menos opções de produtos nacionais e preços mais altos para itens importados, devido à desvalorização do peso e à instabilidade cambial.
O futuro da indústria argentina depende, portanto, de um equilíbrio entre a necessidade de abertura econômica e a proteção dos setores estratégicos que ainda são responsáveis por grande parte do emprego formal no país.








