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Brasil tem chance de captar até 40% da nova cota americana de carne bovina

O governo dos Estados Unidos abriu, na última semana, uma nova cota de importação de carne bovina que pode ser preenchida pelos produtores brasileiros nos próximos 90 dias. A medida, anunciada pelo presidente Donald Trump, tem como objetivo suprir a queda de oferta interna e reduzir os preços ao consumidor. O Brasil, com sua vasta cadeia frigorífica, está posicionado para captar até 40% desse volume adicional.

Contexto da medida americana

Os EUA enfrentam, há meses, uma redução significativa do rebanho bovino, consequência de condições climáticas adversas e de políticas de manejo que limitaram a taxa de reposição. Essa escassez pressionou os preços da carne, sobretudo da carne moída utilizada em hambúrgueres, um dos itens mais consumidos na alimentação diária dos americanos.

Para contornar a situação, a administração Trump lançou duas linhas de ação: incentivos financeiros para pecuaristas aumentarem a produção local e a abertura de cotas de importação sem tarifa adicional por um período de três meses. A segunda estratégia busca garantir oferta imediata enquanto o rebanho se recupera, que é um processo que pode levar de 12 a 18 meses.

A cota adicional autoriza a entrada de até 300 mil toneladas de carne bovina, sem a cobrança de tarifa extra de 26,4% que se aplica após o esgotamento da cota compartilhada de 52,4 mil toneladas. Essa tarifa extra era o principal obstáculo para a competitividade da carne brasileira no mercado norte‑americano.

Potencial brasileiro e concorrência

Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, o Brasil possui a maior indústria de processamento de carne bovina da América Latina, com mais de 200 frigoríficos habilitados a exportar para os EUA. Essa estrutura robusta permite ao país responder rapidamente a demandas de curto prazo.

Entretanto, a nova cota não será dividida automaticamente entre os países interessados. Cada exportador deverá conquistar espaço por meio de preço, qualidade e capacidade logística. Os principais concorrentes identificados são Paraguai e alguns países da América Central, que também oferecem carne de corte mais barato.

A Argentina, apesar de ser um grande fornecedor tradicional, já possui cotas específicas para o mercado americano e, portanto, não disputará diretamente essa nova janela de oportunidade.

  • Brasil: potencial para até 120 mil toneladas.
  • Paraguai: foco em cortes de segunda.
  • América Central: carne de menor valor agregado.

Mesmo com a concorrência, o Brasil tem vantagem competitiva graças ao volume de produção, à experiência em exportação e à proximidade geográfica que reduz custos de frete em relação a fornecedores mais distantes.

Desafios logísticos e de preço

Um dos maiores dilemas para os frigoríficos brasileiros é a escolha do tipo de carne a ser exportada. A nova demanda americana está concentrada nos “trimmings”, partes retiradas durante o desossa e que são transformadas em carne moída. Esses itens têm valor agregado menor que os cortes nobres, o que reduz a margem de lucro.

Os exportadores precisam avaliar se o preço oferecido pelos compradores norte‑americanos compensa os custos de produção, transporte marítimo, seguro e a taxa de câmbio. Uma alta excessiva nos preços pode tornar a operação inviável e, ao mesmo tempo, contrariar o objetivo da medida, que é baixar os preços ao consumidor final.

Alguns fatores críticos que influenciam a decisão dos exportadores incluem:

  • Preço FOB negociado com o importador americano.
  • Custo do frete marítimo, que tem variado nos últimos meses.
  • Taxa de câmbio real‑dólar.
  • Capacidade de atender a requisitos sanitários e de rastreabilidade exigidos pelos EUA.

Além disso, a logística interna do Brasil – como a disponibilidade de contêineres refrigerados, a eficiência dos portos de Santos e Paranaguá e a infraestrutura de estradas – pode impactar significativamente o tempo de entrega e, consequentemente, o preço final.

Impactos regionais e perspectivas

No norte do país, especialmente no estado do Pará, a proibição da exportação de carne bovina para a União Europeia tem gerado preocupação. Produtores que antes direcionavam parte da produção para o mercado europeu agora buscam novos destinos, e a nova cota americana pode representar uma válvula de escape.

Se os exportadores conseguirem colocar entre 90 mil e 120 mil toneladas no mercado dos EUA, isso representará um aumento de quase 30% nas exportações brasileiras para o país, que já somavam 269,1 mil toneladas entre janeiro e agosto do ano corrente, gerando receita de US$ 1,74 bilhão.

Nos próximos meses, o acompanhamento das negociações será crucial. O governo brasileiro tem sinalizado apoio, facilitando a obtenção de certificados sanitários e promovendo missões comerciais nos Estados Unidos. Essa postura pode acelerar a assinatura de contratos e garantir que a carne brasileira chegue ao consumidor americano antes que a cota se esgote.

Em síntese, a oportunidade traz consigo tanto potencial de crescimento quanto riscos operacionais. O sucesso dependerá da capacidade dos frigoríficos de alinhar preço, qualidade e logística, ao mesmo tempo em que monitoram a evolução dos preços nos mercados concorrentes.

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