A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu nesta terça‑feira, 8 de setembro de 2024, a aprovação do registro do Aquipta, primeiro comprimido oral desenvolvido especificamente para a prevenção de crises de enxaqueca no Brasil. O medicamento, contendo 10 mg ou 60 mg de atogepanto, já está disponível para comercialização em caixas de 28 unidades. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União, marcando um avanço significativo no tratamento preventivo da doença neurológica.
Detalhes do registro e apresentação do Aquipta
A resolução da Anvisa autorizou duas apresentações do Aquipta: comprimidos de 10 mg e de 60 mg, cada caixa contendo 28 unidades. Essa padronização facilita a prescrição por parte dos neurologistas, que podem ajustar a dose de acordo com a frequência e a gravidade das crises de cada paciente. O registro segue todas as exigências de qualidade, segurança e eficácia estabelecidas pela agência reguladora.
A AbbVie, empresa biofarmacêutica responsável pela produção do Aquipta, ainda não divulgou oficialmente a data de lançamento comercial nem o preço de varejo do fármaco. A falta de informações pode ser atribuída ao processo de negociação com planos de saúde e ao planejamento de distribuição nacional. Contudo, analistas do setor preveem que o medicamento chegará ao mercado nos próximos meses, após a definição de acordos de reembolso.
O Aquipta é indicado para adultos que apresentam, em média, quatro ou mais episódios mensais de enxaqueca, seja na forma episódica ou crônica. Essa indicação foi baseada em ensaios clínicos que demonstraram redução significativa do número de dias com dor de cabeça em comparação ao placebo. O comprimido pode ser utilizado como terapia de primeira linha quando outras opções preventivas não foram eficazes ou apresentaram efeitos colaterais intoleráveis.
Como o atogepanto atua na prevenção da enxaqueca
O princípio ativo do Aquipta, atogepanto, pertence à classe dos antagonistas do receptor de calcitonina gene‑related peptide (CGRP). Ao bloquear esse receptor, o fármaco interrompe a via de sinalização responsável pela transmissão da dor e pela inflamação vascular que caracterizam a enxaqueca. Essa ação direcionada difere de outros preventivos, que geralmente atuam de forma mais genérica sobre neurotransmissores.
Estudos de fase III realizados em milhares de pacientes mostraram que o atogepanto reduz, em média, de 4 a 5 dias mensais o número de crises, além de diminuir a intensidade da dor quando a dor ainda ocorre. Os benefícios foram observados tanto em pacientes com enxaqueca episódica quanto naqueles com forma crônica, que apresentam mais de 15 dias de dor por mês. Os resultados foram consistentes em diferentes subgrupos, inclusive em indivíduos que já utilizavam outros preventivos sem sucesso.
Além da eficácia, o perfil de segurança do atogepanto tem sido considerado favorável. Os efeitos adversos mais relatados foram leves, como náuseas, fadiga e constipação, e geralmente desapareceram ao longo das primeiras semanas de tratamento. Essa tolerabilidade permite que o comprimido seja mantido por períodos prolongados, atendendo à natureza crônica da enxaqueca.
Entendendo a enxaqueca: causas, sintomas e fatores de risco
A enxaqueca costuma se manifestar como dor latejante em um dos lados da cabeça, acompanhada de sensibilidade à luz (fotofobia), ao som (fonofobia) e, em muitos casos, de náuseas ou vômitos. Aproximadamente 30 % dos pacientes relatam aura, que inclui distúrbios visuais como pontos cintilantes ou linhas em zigue‑zague antes do início da dor.
Vários gatilhos podem precipitar uma crise, e a identificação desses fatores é fundamental para o manejo preventivo. Entre os mais comuns estão:
- Estresse emocional ou físico
- Privação ou má qualidade do sono
- Alimentos ricos em tiramina, como queijos envelhecidos e embutidos
- Bebidas contendo cafeína ou álcool em excesso
- Alterações hormonais, especialmente em mulheres durante o ciclo menstrual
A predisposição genética desempenha um papel relevante: se um dos pais tem enxaqueca, a probabilidade de o filho desenvolver a condição varia entre 50 % e 75 %. Estudos de gêmeos confirmam que variantes genéticas relacionadas ao metabolismo do CGRP aumentam a suscetibilidade.
Com cerca de 1 bilhão de pessoas afetadas mundialmente, a enxaqueca é a segunda doença neurológica mais prevalente, ficando atrás apenas do acidente vascular cerebral (AVC). Na classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), ela ocupa a sexta posição entre as enfermidades que mais incapacitam, devido ao impacto direto na produtividade e na qualidade de vida.
Impacto para pacientes e perspectivas no mercado
O Aquipta chega ao Brasil como parte de uma nova geração de terapias que atacam diretamente os mecanismos fisiopatológicos da enxaqueca. Enquanto opções como betabloqueadores, antidepressivos ou anticonvulsivantes atuam de forma indireta, o atogepanto oferece uma abordagem mais específica, potencialmente aumentando as taxas de resposta clínica.
Para os pacientes, isso significa a possibilidade de reduzir não apenas a frequência, mas também a gravidade das crises, permitindo retomar atividades cotidianas sem a constante preocupação com a dor. A presença de um tratamento oral, ao contrário de injeções subcutâneas de anticorpos anti‑CGRP, pode melhorar a adesão ao plano terapêutico.
Do ponto de vista econômico, a entrada do Aquipta no mercado brasileiro pode estimular a concorrência e, a longo prazo, favorecer a negociação de preços mais acessíveis com planos de saúde. No entanto, a expectativa de custo ainda é incerta, e a disponibilidade em regiões menos favorecidas dependerá de políticas de distribuição e de apoio governamental.
Especialistas ressaltam que, apesar de ser um avanço importante, a enxaqueca continua sem cura definitiva. O diagnóstico precoce, o acompanhamento multidisciplinar e a personalização das estratégias preventivas permanecem essenciais para maximizar os benefícios do Aquipta e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.








