No domingo, 6 de outubro de 2024, a extrema‑direita Alternativa para a Alemanha (AfD) alcançou 44% dos votos nas eleições estaduais de Saxônia‑Anhalt, no leste da República Federal. O resultado colocou o partido à frente da tradicional União Democrata‑Cristã (CDU), que ficou com 18% do eleitorado. Apesar da vitória expressiva, a legenda ainda não possui maioria absoluta para governar sozinha.
Resultados eleitorais e o novo cenário político
Os números oficiais mostram que a AfD conquistou 39 cadeiras no parlamento regional, três a menos das 42 necessárias para garantir a maioria. Essa situação cria um impasse que exigirá negociações complexas para definir a composição do governo estadual. A votação também evidenciou um colapso dos votos para o SPD (9,3%), Verdes (8,9%) e Die Linke (8,6%).
Comparado ao pleito de 2021, o apoio à AfD praticamente dobrou, sinalizando um salto significativo no apoio popular à direita radical. A população de Saxônia‑Anhalt, cerca de 2,1 milhões de habitantes, assistiu a uma mudança de paradigma que não ocorria desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O serviço de inteligência interno da Alemanha classifica a seção estadual da AfD como “extremista de direita”, classificação que o líder regional Ulrich Siegmund rejeita veementemente.
Desafios para a formação de governo
Sem maioria, a AfD precisará buscar alianças ou aceitar um governo de minoria. Siegmund declarou que não pretende liderar um executivo de minoria, mas também não descartou a possibilidade de novas eleições para alcançar 50% a 55% dos votos. Ele afirmou ainda estar disposto a dialogar com parlamentares individuais ou com outro partido para viabilizar acordos.
Uma das hipóteses em debate envolve a pequena Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), que combina ideias econômicas de esquerda com posições sociais ultraconservadoras. A BSW, que conquistou cinco cadeiras, poderia oferecer apoio tácito à AfD, permitindo a formação de um governo de minoria. No entanto, todos os demais partidos, exceto a BSW, recusam qualquer cooperação com a extrema‑direita.
O chanceler Friedrich Merz convocou uma reunião de emergência com líderes da CDU para analisar a derrota e definir estratégias. O chefe da CDU em Saxônia‑Anhalt, Sven Schulze, apontou que a campanha regional foi prejudicada pelas políticas do governo federal. Enquanto isso, a líder nacional da AfD, Alice Weidel, sugeriu que a CDU ou parte dela poderia negociar, embora a legenda de Merz tenha descartado qualquer aliança com a extrema‑direita.
Repercussões nacionais e europeias
A vitória da AfD acendeu alertas em Berlim e em capitais europeias, que descrevem o cenário como “momento grave” para a democracia liberal. Analistas temem que a presença da extrema‑direita nos governos estaduais possa influenciar políticas de imigração, educação e cultura em todo o país. A possibilidade de endurecer a legislação migratória, abolir a frequência escolar obrigatória e revisar o currículo de história são algumas das propostas anunciadas por Siegmund.
Na esfera internacional, observadores europeus apontam que a ascensão da AfD pode inspirar movimentos semelhantes em outros países, alimentando um clima de polarização e nacionalismo. A União Europeia tem monitorado de perto a situação, enfatizando a necessidade de preservar os valores democráticos e os direitos humanos. Enquanto isso, partidos de centro‑direita e centro‑esquerda buscam estratégias para conter a expansão da agenda radical.
Perspectivas para o futuro da AfD
Se a AfD conseguir formar um governo, ainda será necessário enfrentar a resistência institucional e judicial, que pode questionar a legitimidade de decisões consideradas incompatíveis com a Constituição. A experiência de governos regionais anteriores mostra que a falta de apoio parlamentar pode levar a crises de governabilidade e até a convocação de novas eleições. Por outro lado, um governo bem‑sucedido poderia consolidar a AfD como força política dominante em outras regiões.
Para os eleitores, a vitória reflete um descontentamento crescente com os partidos tradicionais e com as políticas de imigração e integração. As pesquisas apontam que a sensação de insegurança econômica e cultural está impulsionando o voto em alternativas mais radicais. Assim, a AfD tem a oportunidade de transformar esse descontentamento em apoio institucional, desde que consiga construir pontes políticas que ainda parecem inexistentes.
Em síntese, a eleição de 6 de outubro marcou um ponto de inflexão na política alemã, colocando a extrema‑direita em posição de negociação inédita. O desenrolar das negociações, a reação da sociedade civil e a postura dos parceiros europeus determinarão se este será um episódio isolado ou o prenúncio de uma nova era política na Alemanha.








