Um estudo clínico de fase 2 realizado pela Roche revelou que a enicepatida, ainda em fase experimental, promoveu uma perda média de 15,5% do peso corporal em menos de um ano e melhorou significativamente os índices de glicemia em adultos com diabetes tipo 2. Os resultados foram apresentados ao final de 48 semanas de tratamento, envolvendo 447 participantes distribuídos em diferentes centros de pesquisa no Brasil e em outros países.
Detalhes do ensaio e perfil dos participantes
O protocolo incluiu pacientes com diagnóstico de diabetes tipo 2 que apresentavam sobrepeso ou obesidade, idade entre 30 e 75 anos, e que já utilizavam terapias convencionais sem alcançar metas metabólicas adequadas. Foram excluídos indivíduos com histórico de pancreatite grave, doença cardiovascular instável ou uso de medicamentos que pudessem interferir nos resultados.
Os voluntários foram randomizados em grupos que receberam diferentes doses da enicepatida ou placebo, com injeções semanais administradas por meio de uma caneta autoinjetável. A dose máxima testada foi de 24 mg, considerada a mais eficaz para os desfechos de peso e glicemia.
- 447 participantes total
- 48 semanas de acompanhamento
- Doses de 4, 12 e 24 mg
- Injeção semanal via caneta
Resultados de perda de peso e saturação
Na coorte que recebeu a dose máxima, a redução média de peso foi de 15,5%, sem que fosse observado um platô de emagrecimento durante todo o período de estudo. Isso indica que a perda de gordura corporal continuou de forma constante até o final da intervenção.
Além disso, mais de 80% dos pacientes que iniciaram o tratamento com peso acima de 100 kg atingiram uma diminuição superior a 10% do seu peso inicial, um marco clínico associado à melhora de comorbidades relacionadas à obesidade.
Os pesquisadores destacaram que a combinação de hormônios GLP‑1 e GIP presente na enicepatida parece potencializar a saciedade e aumentar o gasto energético, diferindo levemente do mecanismo da tirzepatida, que utiliza a mesma dupla hormonal, mas com uma proteína de sinalização distinta.
Impacto no controle glicêmico
Quanto ao parâmetro de hemoglobina glicada (HbA1c), a enicepatida reduziu a média em 2,65% ao final de 48 semanas, levando a maioria dos participantes a alcançar a meta glicêmica recomendada de ≤6,5%.
Em pacientes com HbA1c inicial acima de 8,5%, a queda foi ainda mais pronunciada, atingindo 4,3%. Ao término do estudo, 90% dos indivíduos tratados alcançaram a meta de HbA1c ≤6,5%, e 62% chegaram a níveis considerados normais (≤5,7%).
Esses resultados foram descritos como “surpreendentes” pelos especialistas, que ressaltam a possibilidade de a enicepatida tornar‑se uma das opções mais potentes para o manejo metabólico do diabetes tipo 2.
Segurança e tolerabilidade
O perfil de segurança apresentou eventos adversos semelhantes aos de outras medicações da classe GLP‑1/GIP, predominantemente sintomas gastrointestinais leves a moderados, como náuseas e diarreia.
A taxa de descontinuação por efeitos adversos foi de 2% no grupo ativo, comparada a 0% no grupo placebo, indicando boa aderência ao tratamento.
O endocrinologista Clayton Macedo, coordenador do serviço de Endocrinologia do Exercício da Unifesp, explicou que a diferença na proteína recrutada pelo receptor pode reduzir a incidência de efeitos colaterais graves, proporcionando um balanço benefício‑risco favorável.
Próximos passos e expectativas de mercado
Dois ensaios de fase 3 já estão em andamento, focados no tratamento da obesidade em população geral, enquanto outro estudo de fase 3 avaliará o controle glicêmico e desfechos cardiovasculares, com início previsto para o primeiro semestre do próximo ano.
Levi Garraway, diretor médico da Roche, afirmou que a combinação de perda de peso sustentada e controle glicêmico robusto posiciona a enicepatida como uma candidata ideal para reduzir complicações associadas ao diabetes tipo 2 e melhorar a saúde metabólica global.
Se os resultados de fase 3 confirmarem as tendências observadas, a caneta semanal poderá ser lançada nos mercados globais nos próximos dois a três anos, oferecendo uma alternativa inovadora tanto para endocrinologistas quanto para pacientes que buscam soluções mais eficazes contra a obesidade e o diabetes.








