Pesquisadores das Universidades Federal do Rio de Janeiro e Estadual do Maranhão anunciaram, em 2023, a descoberta de um potente composto extraído do inhame que demonstra ação antitumoral em laboratórios brasileiros. O estudo foi conduzido em laboratórios de biotecnologia avançada, com foco em linhagens de câncer de mama e glioblastoma. A pesquisa destaca como a tarina, proteína presente no cormo do taro, pode representar uma nova fronteira no tratamento oncológico.
Descoberta da tarina e seu histórico de uso
A planta conhecida como taro ou inhame tem sido utilizada na medicina popular há séculos, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Entre os usos tradicionais estão o tratamento de diabetes, hipertensão e até problemas capilares. Essa longa história de uso despertou o interesse de cientistas que buscavam substâncias bioativas com potencial terapêutico.
Entre os compostos identificados, a tarina se destaca como uma lectina vegetal com propriedades antitumorais, antivirais e inseticidas. Estudos iniciais realizados por grupos internacionais já apontavam sua capacidade de interferir no crescimento de células cancerígenas, mas poucos investigaram seu mecanismo de ação detalhado.
Estudos científicos e comprovações de atividade antitumoral
Há mais de quinze anos, a equipe de pesquisa isolou a tarina com pureza superior a 90% e registrou sua estrutura tridimensional em banco de dados internacional. Desde então, diversos ensaios in vitro foram realizados, demonstrando que a proteína pode interromper o ciclo celular de linhas agressivas de câncer de mama (MDA‑MB‑231) e glioblastoma (U‑87 MG).
Os resultados mostraram que, ao ser exposta às células tumorais, a tarina provocou bloqueio da fase S do ciclo celular, induziu apoptose e estimulou processos de autofagia. Além disso, a capacidade de migração das células diminuiu significativamente, sugerindo um efeito antimetastático.
- Bloqueio do ciclo celular
- Indução de apoptose
- Estimulação de autofagia
- Redução da migração celular
Importante ressaltar que, em culturas de células humanas saudáveis, a tarina não provocou toxicidade observável, indicando alta seletividade contra células malignas.
Nanotecnologia: da extração ao nanolipossoma
Para potencializar a entrega da tarina ao tumor, os pesquisadores recorreram à nanotecnologia, encapsulando a proteína em nanolipossomas. Essa estratégia protege a molécula da degradação no sangue e permite liberação controlada no microambiente tumoral.
Os nanolipossomas foram testados em modelos in vitro de barreira hematoencefálica, simulando o desafio de atravessar o cérebro. Após 180 minutos, aproximadamente 20% da formulação conseguiu penetrar a barreira, um avanço significativo para o tratamento de glioblastoma.
Além da eficácia, a formulação demonstrou perfil de segurança: nenhuma alteração citotóxica foi observada em células endoteliais cerebrais nem em fibroblastos normais. Essa combinação de eficácia e segurança reforça o potencial da nanotecnologia como vetor de fármacos oncológicos.
Resultados promissores e próximos passos
Os ensaios de 24 e 48 horas revelaram que a eficácia da tarina encapsulada depende do tempo de exposição, indicando liberação sustentada dos nanolipossomos. Esse comportamento é crucial para manter concentrações terapêuticas no tumor ao longo do tratamento.
Com apoio financeiro da FAPERJ, a equipe avançou para estudos de farmacocinética e biodisponibilidade em modelos animais, buscando validar a capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica em condições fisiológicas reais.
Os próximos passos incluem a otimização da formulação para uso clínico, testes de combinação com quimioterápicos convencionais e a elaboração de protocolos de ensaios clínicos fase I. Caso os resultados se confirmem, a tarina encapsulada poderá oferecer uma terapia mais seletiva, reduzindo os efeitos colaterais típicos da quimioterapia tradicional.
Em síntese, a pesquisa evidencia como recursos naturais da flora brasileira, aliados à nanotecnologia, podem gerar soluções inovadoras contra o câncer. O inhame, alimento cotidiano, transforma-se em fonte de esperança para pacientes que buscam tratamentos mais eficazes e menos agressivos.








