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Avatares de IA: a nova fronteira do lucro nas redes sociais

Avatares gerados por inteligência artificial estão sendo usados como influenciadores digitais, transformando perfis falsos em fontes de renda. A prática ganhou força no Brasil a partir de 2023 e se espalha rapidamente nas principais plataformas como TikTok, YouTube e Instagram.

Como funcionam os avatares de IA

Esses personagens não têm existência física, mas são criados com ferramentas avançadas de geração de imagens e voz. Os criadores alimentam o modelo com roteiros padronizados, que são depois adaptados para diferentes idiomas e contextos culturais.

O processo começa com a escolha de um nicho de mercado, como moda, finanças ou saúde. Em seguida, desenvolve‑se um script genérico que pode ser traduzido e encenado por dezenas de avatares simultaneamente. Cada avatar recebe um rosto sintético, voz sintetizada e um background digital.

Com a ajuda de algoritmos de recomendação, os vídeos são direcionados a públicos específicos que demonstram interesse nos temas abordados. Assim, a atenção do usuário é convertida em visualizações, cliques e, finalmente, em receita.

Modelos de monetização e estratégias de escala

Os produtores de avatares utilizam diversas fontes de renda, que podem ser combinadas para maximizar o lucro. Abaixo, estão os principais métodos:

  • Monetização de vídeos: anúncios exibidos nas plataformas geram receita por visualização.
  • Comissões de afiliados: links de produtos direcionam compras e garantem uma porcentagem ao criador.
  • Venda de infoprodutos: ebooks, cursos e guias são promovidos pelos avatares.
  • Revenda de perfis: contas com alto engajamento são vendidas a agências ou políticos.

Além disso, muitos criadores produzem conteúdo “slop”, vídeos genéricos de baixa qualidade que atendem aos requisitos de monetização do YouTube, como 4 mil horas de exibição e mil inscritos. Embora o termo remeta a material ruim, esses vídeos costumam conter informações sensacionalistas que atraem públicos vulneráveis.

Com ferramentas de automação acessíveis, a produção atinge escala industrial. Um único roteiro pode ser encenado por até 20 avatares diferentes, permitindo a penetração em múltiplos países simultaneamente.

Riscos à saúde e à desinformação

O aspecto mais alarmante dessa prática está na promoção de tratamentos médicos sem comprovação científica. Avatares fictícios recomendam suplementos, dietas milagrosas e até procedimentos invasivos, levando seguidores a abandonar terapias convencionais.

Especialistas apontam que a credibilidade visual dos avatares dificulta a verificação da veracidade das informações. Quando o conteúdo é consumido em telas pequenas de celular, a responsabilidade de checar os dados recai quase que totalmente sobre o usuário, que muitas vezes não tem tempo ou conhecimento para investigar.

Organizações de monitoramento, como a Ctrl Z, registram um aumento de comentários de pessoas que afirmam estar seguindo recomendações de IA para tratar doenças graves. Essa situação eleva o risco de complicações de saúde e sobrecarga sistemas médicos.

Além da saúde, a manipulação de sentimentos básicos – como medo, esperança e curiosidade – é usada para criar engajamento. Narrativas que exploram histórias de superação, romance ou drama histórico são recorrentes, independentemente da veracidade dos fatos.

Em campanhas políticas, perfis com alto engajamento podem ser alugados para disseminar mensagens partidárias, ampliando ainda mais o alcance de desinformação. O ciclo de produção, monetização e revenda cria um ecossistema autossustentável que dificulta a intervenção regulatória.

Para combater esse fenômeno, pesquisadores como Fernando Ferreira, do NetLab da UFRJ, recomendam a implementação de filtros automáticos que identifiquem avatares sintéticos e a exigência de transparência nas descrições de conteúdo. Entretanto, a velocidade de evolução das tecnologias de IA representa um desafio constante para os reguladores.

Em síntese, a combinação de criatividade digital, algoritmos de segmentação e modelos de negócio agressivos transforma avatares de IA em verdadeiras máquinas de lucro. Ao mesmo tempo, a falta de responsabilidade editorial e a vulnerabilidade dos usuários criam um cenário perigoso para a saúde pública e a integridade da informação.

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