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Voto útil nas eleições de 2026: como ele favorece quem lidera nos estados

Nas eleições presidenciais de 2026, o fenômeno do voto útil já se manifesta em diversos estados brasileiros, alterando a dinâmica das disputas eleitorais. Desde o início de setembro, pesquisas realizadas pela Quaest revelam que eleitores têm abandonado candidatos de terceira via em favor dos líderes de turno. Esse movimento está sendo observado em Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal e Alagoas.

Entendendo o voto útil segundo a teoria de Gary Cox

O cientista político Gary Cox, em seu livro “Making Votes Count” (1997), descreve o voto útil como um cálculo racional do eleitor, e não como traição a convicções pessoais. Segundo Cox, três condições precisam estar presentes para que o eleitor opte pelo voto útil:

  • O eleitor se importa com o resultado final da eleição, não votando apenas para expressar identidade.
  • Ele tem clareza sobre quais candidatos são viáveis e quais não são.
  • Essa informação é amplamente compartilhada, geralmente por meio de pesquisas de opinião.

Quando esses três ingredientes se combinam, a disputa converge para os dois candidatos com maiores chances, enquanto os demais perdem apoio – um processo que Cox denomina “deserção estratégica”.

Evidências das últimas rodadas da Quaest

As três últimas pesquisas da Quaest, realizadas nos dias 8, 23 e 29 de setembro de 2026, cobriram cinco unidades da federação: Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal. Em cada estado, foram somadas as intenções de voto dos candidatos considerados fora da polarização – Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) – e comparadas com a evolução da vantagem dos líderes de turno.

O padrão observado foi consistente: à medida que a “terceira via” perdia votos, estes migravam para o candidato que já liderava naquele território. Em quatro dos cinco estados, a queda da terceira via ampliou a vantagem do líder. Minas Gerais foi a exceção, onde tanto o presidente Lula quanto Flávio Bolsonaro cresceram de forma equilibrada.

Impactos nos principais estados

Pernambuco: o bloco da terceira via caiu de 10% para 6% entre 8 e 29 de setembro. Lula avançou de 51% para 58%, enquanto Flávio Bolsonaro recuou levemente de 21% para 20%. A vantagem de Lula aumentou de 30 para 38 pontos, indicando que eleitores que experimentaram candidatos fora da polarização retornaram ao voto de origem.

Rio de Janeiro: a terceira via reduziu de 12% para 8%. Flávio Bolsonaro subiu de 34% para 38%, enquanto Lula recuou de 32% para 31%. A diferença entre os dois passou de 2 para 7 pontos a favor de Flávio, reforçando a lógica do voto útil.

São Paulo: o bloco da terceira via diminuiu de 15% para 13%. Flávio Bolsonaro ganhou cinco pontos, passando de 31% para 36%, enquanto Lula manteve-se estável em 30%. A vantagem bolsonarista cresceu de 1 para 6 pontos.

Distrito Federal: o caso mais marcante. Caiado viu sua votação cair de 13% para 8%, enquanto a terceira via desceu de 24% para 16%. Flávio Bolsonaro avançou de 31% para 38%, criando uma vantagem de 6 pontos sobre Lula, que teve crescimento mais tímido.

Minas Gerais: a terceira via encolheu de 19% para 14%, mas tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro ganharam quatro pontos cada, mantendo a vantagem de Lula em 4 pontos. Minas permanece o estado mais equilibrado, onde o voto útil ainda não definiu um vencedor claro.

Lições para candidatos fora da polarização

Os resultados reforçam a previsão de Cox: a deserção estratégica se acelera à medida que a eleição se aproxima e as pesquisas tornam a hierarquia dos candidatos mais transparente. Candidatos que não conseguem se posicionar como viáveis tendem a perder apoio rapidamente, pois eleitores que antes experimentaram a terceira via retornam ao voto de origem para evitar que o candidato que menos rejeitam vença.

Essa dinâmica cria um círculo vicioso para alternativas políticas fora dos grandes polos. À medida que a terceira via diminui, o espaço para propostas diferentes encolhe, fortalecendo ainda mais a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro nos estados analisados.

Para reverter esse quadro, os candidatos de fora da polarização precisarão, antes de tudo, demonstrar viabilidade clara nas pesquisas e oferecer uma proposta que mobilize eleitores a arriscar seu voto, mesmo diante da percepção de baixa chance de vitória.

Em síntese, o voto útil não tem lado político; ele simplesmente reforça quem já lidera quando o eleitor percebe que a disputa está definida. No Nordeste, isso favorece Lula; no Rio, São Paulo e Brasília, beneficia Flávio Bolsonaro. A drenagem da terceira via confirma a teoria de Cox e aponta para um cenário onde a escolha estratégica do eleitor pode ser decisiva para o resultado do primeiro turno.

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