Em meio ao clima de polarização política que marca o Brasil em 2024, especialistas da área da saúde mental têm chamado atenção para a mitomania, um padrão de mentira compulsiva que ultrapassa o simples engano cotidiano. O fenômeno, estudado há mais de um século, vem ganhando novas interpretações à luz de pesquisas recentes que apontam seus efeitos devastadores nas relações familiares, profissionais e eleitorais.
O que é a mitomania e como ela se diferencia da mentira comum
A mitomania, também conhecida como pseudologia fantástica, caracteriza‑se por narrativas que mesclam fatos reais com exageros e invenções, criando histórias que parecem plausíveis, mas que carecem de veracidade. Ao contrário da mentira ocasional, que costuma ter um objetivo claro e limitado, a pessoa mitômana relata episódios de forma persistente, muitas vezes sem perceber a necessidade de mentir.
Essa compulsão não se restringe a um único contexto; ela pode aparecer tanto em situações íntimas quanto em ambientes públicos, como campanhas eleitorais, onde a manipulação de informações pode influenciar decisões de milhares de eleitores.
Como a mitomania se manifesta no cotidiano
Os relatos de quem convive com mitômanos costumam seguir um padrão recorrente:
- Histórias que colocam o narrador como vítima de eventos extraordinários;
- Descrições de conquistas improváveis que reforçam a autovalorização;
- Detalhes vívidos que, embora pareçam reais, não resistem à verificação de fatos.
Esses episódios podem gerar confusão emocional nos ouvintes, que inicialmente acreditam nas narrativas, mas, com o tempo, percebem as contradições e passam a questionar a credibilidade do interlocutor.
Quando a mentira se torna um mecanismo de defesa, o indivíduo pode reconhecer que certas situações não aconteceram, mas ainda assim continua a contá‑las, diferindo assim do delírio, que ocorre sem consciência da falsidade.
Impactos psicológicos e sociais da mentira patológica
Estudos recentes apontam que a mitomania pode gerar sofrimento significativo, tanto para o próprio mitômano quanto para seu círculo social. Entre os danos mais frequentes estão:
- Isolamento social devido à perda de confiança;
- Problemas no ambiente de trabalho, como demissões ou promoções revogadas;
- Conflitos familiares intensos, que podem culminar em separações ou afastamentos.
Além disso, a presença de mitomania em contextos clínicos costuma estar associada a transtornos de personalidade, depressão, ansiedade e, em alguns casos, abuso de substâncias. Contudo, a literatura enfatiza que nem todo mentiroso patológico apresenta um diagnóstico único, reforçando a ideia de que a mitomania é um fenômeno transversal a diferentes perfis psicológicos.
Estratégias de convivência e intervenção
Para quem convive com alguém que mente sistematicamente, a adaptação relacional pode ser a primeira resposta. Essa adaptação envolve selecionar quais informações merecem verificação e quais podem ser ignoradas para evitar desgaste emocional.
Especialistas recomendam, porém, que essa estratégia não substitua a busca por ajuda profissional. Intervenções psicoterapêuticas, como a terapia cognitivo‑comportamental, podem auxiliar o mitômano a reconhecer padrões de engano e desenvolver habilidades de comunicação mais autênticas.
Em ambientes institucionais, como empresas ou partidos políticos, políticas claras de transparência e mecanismos de verificação de fatos são essenciais para limitar a disseminação de narrativas falsas e proteger a integridade das decisões coletivas.
Em suma, a mitomania representa um desafio complexo que vai além da simples questão moral da mentira. Ela afeta a saúde mental, a confiança interpessoal e a qualidade das decisões sociais, exigindo atenção multidisciplinar para sua compreensão e manejo.








