O apresentador Carlos Alberto de Nóbrega, de 90 anos, foi internado na última semana no Hospital Sírio‑Libanês, em São Paulo, após ser diagnosticado com o vírus Coxsackie tipo 2. O quadro evoluiu para uma bradicardia e outras arritmias, exigindo a implantação de um marcapasso. A situação ganhou destaque nacional porque o caso mostra como um vírus geralmente leve pode se transformar em um problema cardíaco grave.
Como o Coxsackie pode atingir o coração
Os coxsackievírus pertencem ao grupo dos enterovírus, o mesmo da poliomielite, e são divididos em dois ramos, A e B. Embora a maioria das infecções se manifeste como febre, diarreia ou a clássica síndrome mão‑pé‑boca em crianças, algumas cepas podem alcançar órgãos internos.
Quando o vírus entra pela boca, ele se replica no intestino e, a partir daí, entra na corrente sanguínea. No sangue, ele procura por receptores específicos – descritos como “fechaduras” – que estão presentes nas junções entre as células do músculo cardíaco. Ao se ligar a essas estruturas, o vírus pode interferir na condução elétrica que regula os batimentos.
Na maioria dos casos de miocardite viral, a interferência é temporária e o coração se recupera sem necessidade de intervenção. Contudo, há relatos raros, como o do apresentador, em que o bloqueio elétrico se torna permanente, obrigando a colocação de um marcapasso definitivo.
Sintomas, diagnóstico e tratamento
Os sinais de alerta variam conforme a gravidade da infecção e o estado de saúde pré‑existente do paciente. Em adultos saudáveis, a doença costuma ser assintomática ou apresentar sintomas leves, como dor de garganta, febre curta ou erupções cutâneas.
Quando o coração é comprometido, surgem sintomas mais sérios, como:
- Falta de ar ao realizar esforços mínimos;
- Dor no peito ou sensação de peso;
- Palpitações irregulares;
- Fadiga extrema e tontura;
- Bradicardia – batimento cardíaco mais lento que o normal.
Em recém‑nascidos e pessoas imunocomprometidas, a doença pode se manifestar como febre alta, irritabilidade, dificuldade para mamar ou convulsões, exigindo avaliação médica urgente.
O diagnóstico de casos leves costuma ser clínico, baseado nos sintomas relatados. Nos casos mais graves ou atípicos, os médicos solicitam exames laboratoriais que detectam o material genético do vírus (RT‑PCR) no sangue ou no líquor, além de eletrocardiogramas e ecocardiogramas para avaliar a função cardíaca.
O tratamento é, em geral, de suporte: hidratação, controle da febre e, quando necessário, uso de anti‑inflamatórios. Quando há comprometimento da condução elétrica, como no caso de Carlos Alberto, a solução definitiva é a implantação de um marcapasso, que assume a função de gerar os impulsos elétricos que o coração não consegue produzir.
Prevenção e cuidados para grupos de risco
O vírus Coxsackie se espalha principalmente pelo contato com fezes contaminadas, mas também pode ser transmitido por gotículas respiratórias, saliva e superfícies contaminadas. Por isso, medidas de higiene são fundamentais.
As recomendações incluem:
- Lavar as mãos com água e sabão por, no mínimo, 20 segundos, sobretudo após usar o banheiro ou trocar fraldas;
- Desinfetar brinquedos, mesas e objetos que entram em contato com a boca das crianças;
- Evitar compartilhar utensílios pessoais como copos e talheres;
- Manter ambientes bem ventilados, especialmente em creches e escolas.
Grupos mais vulneráveis – recém‑nascidos, idosos, pacientes com insuficiência cardíaca pré‑existente e indivíduos com sistema imunológico debilitado – devem redobrar a atenção. Em caso de sintomas suspeitos, a consulta médica deve ser imediata para evitar complicações graves.
Além do coração, o Coxsackie tem afinidade com o pâncreas, e estudos em andamento investigam sua possível relação com o desenvolvimento do diabetes tipo 1. Embora ainda não haja consenso científico, a hipótese reforça a importância de monitorar infecções persistentes em crianças e adolescentes.
Em resumo, embora a maioria das infecções por Coxsackie seja leve, o vírus pode, em situações específicas, desencadear quadros graves, como a miocardite que levou Carlos Alberto de Nóbrega a precisar de um marcapasso. A conscientização sobre os sinais de alerta e a prática constante de medidas preventivas são as melhores armas para minimizar os riscos.








