Em 29 de setembro de 2026, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou que o governo está avaliando a oferta de ativos estatais ao setor privado e a devolução de propriedades a antigos proprietários. O pronunciamento foi feito ao vivo na televisão nacional, marcando um ponto de inflexão na política econômica do país.
Contexto político e econômico
A Venezuela vive uma crise profunda desde a queda da produção de petróleo em 2014, que agravou a escassez de bens básicos e gerou hiperinflação. A captura e prisão de Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, abriram espaço para um governo interino liderado por Delcy Rodríguez, que herdou um Estado altamente centralizado.
Desde a Revolução Bolivariana, o modelo econômico tem sido baseado na nacionalização de recursos estratégicos, principalmente o petróleo, que representa mais de 90% das exportações. Esse modelo, porém, tem sido alvo de críticas internacionais por falta de transparência e eficiência.
Com a mudança de comando, o Legislativo venezuelano aprovou, em janeiro, a abertura do setor petrolífero à participação privada, revertendo um dos pilares do socialismo de Estado. Essa decisão foi impulsionada por pressões externas, especialmente dos Estados Unidos, que buscam estabilizar o mercado energético da região.
O cenário interno também mudou: manifestações populares exigem melhorias nos serviços públicos, enquanto empresários locais clamam por maior segurança jurídica para investir. A combinação desses fatores criou um ambiente propício para reformas estruturais.
O processo de abertura ao setor privado
Delcy Rodríguez descreveu o processo como “bem avançado” e informou que uma comissão técnica já está elaborando os termos de concessão dos ativos. O objetivo é atrair capital estrangeiro, principalmente dos Estados Unidos, Europa e Ásia, para revitalizar campos petrolíferos abandonados.
Entre as etapas previstas, destacam‑se:
- Levantamento detalhado dos ativos estatais, incluindo reservas de petróleo, minas de ouro e infraestruturas de refino.
- Definição de critérios de elegibilidade para investidores privados, com ênfase em práticas sustentáveis.
- Negociação de contratos de longo prazo que garantam royalties ao Estado venezuelano.
- Implementação de mecanismos de monitoramento para evitar fraudes e corrupção.
O acordo firmado em agosto entre Estados Unidos e Venezuela permitiu que empresas americanas operassem campos de petróleo venezuelanos, servindo como piloto para futuras concessões. Essa parceria já resultou em um aumento de 12% na produção nas áreas testadas.
Além do petróleo, o governo pretende abrir o setor de mineração, que possui reservas significativas de ouro, bauxita e diamantes. A proposta inclui a criação de zonas econômicas especiais, onde as regras fiscais serão mais atrativas para investidores estrangeiros.
Para garantir a legalidade da devolução de propriedades a antigos proprietários, o Estado está revisando documentos de registro que datam da nacionalização dos anos 2000. O processo será conduzido por um tribunal especializado, que deverá emitir decisões em até 180 dias.
Reações internas e externas
Os partidos de oposição celebraram a iniciativa como um passo rumo à reconciliação nacional e ao fim da “expropriação” de bens. Por outro lado, facções mais radicais dentro do movimento bolivariano acusam a presidente de “trair os princípios da Revolução”.
Organizações da sociedade civil, como a Coalizão por uma Venezuela Transparente, pedem que o processo seja acompanhado por observadores internacionais para garantir a lisura das concessões. Elas temem que a abertura possa gerar novos casos de corrupção se não houver controle adequado.
Nos Estados Unidos, o Departamento de Energia elogiou a medida, afirmando que a cooperação com a Venezuela pode contribuir para a segurança energética global. O governo brasileiro, por sua vez, manifestou interesse em participar de projetos de refino e distribuição de combustíveis.
Na Europa, empresas de energia renovável enxergam a abertura como uma oportunidade para investir em projetos de gás natural e energia solar, alinhando-se à transição energética. Já a China, tradicional parceira de Caracas, ainda não se posicionou oficialmente, mas acompanha de perto as negociações.
Dentro da Venezuela, sindicatos de trabalhadores do setor petrolífero expressaram preocupação com possíveis demissões e redução de salários. Em resposta, o governo prometeu manter empregos críticos e oferecer programas de requalificação profissional.
Implicações para o futuro da Venezuela
Se as concessões forem bem‑sucedidas, a Venezuela poderá recuperar parte de sua produção de petróleo, que caiu para menos de 500 mil barris por dia nos últimos anos. Esse aumento teria impacto direto na balança comercial e na capacidade de importação de alimentos e medicamentos.
Além do aspecto econômico, a devolução de propriedades pode ajudar a sanar disputas judiciais que perduram há décadas, reduzindo a tensão social e promovendo a reconciliação entre antigos proprietários e o Estado.
Entretanto, o sucesso depende da estabilidade política. A presidente interina ainda enfrenta desafios para consolidar sua autoridade, já que facções leais a Maduro mantêm controle sobre partes do exército e das forças de segurança.
Os analistas de risco apontam que a confiança dos investidores internacionais será testada nos próximos seis meses, período em que o governo deverá publicar os termos definitivos dos contratos e garantir a segurança jurídica.
Em resumo, a proposta de privatizar ativos estatais e devolver propriedades representa uma tentativa ousada de reverter décadas de políticas de nacionalização. Se bem‑executada, pode abrir caminho para a recuperação econômica da Venezuela e para a normalização de suas relações internacionais.








