As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para a terça‑feira, 3 de novembro de 2026, podem redefinir o rumo da política econômica do presidente Donald Trump e gerar repercussões diretas nos mercados brasileiros, sobretudo sobre o dólar e a taxa de juros. O pleito, que decide o controle da Câmara dos Representantes e parte do Senado, ocorre em meio a uma queda histórica de aprovação do mandatário, segundo pesquisa Reuters/Ipsos.
Impactos internos: o que muda no Congresso americano
O resultado das chamadas “midterms” determinará quantas cadeiras os democratas e os republicanos conquistarão nas duas casas legislativas. Uma vitória dos democratas na Câmara – o que analistas chamam de “onda azul” – reduziria o espaço de manobra de Trump para aprovar cortes de impostos, desregulamentação e políticas comerciais agressivas. Já um cenário de divisão equilibrada no Senado pode gerar impasses legislativos e aumentar a pressão por negociações.
Os economistas Andressa Durão, do ASA, e Gustavo Sung, da Suno Research, apontam que o desgaste do presidente está ligado ao aumento do custo de vida, especialmente aos preços da gasolina, que já ultrapassam US$ 4 por galão, e do diesel, acima de US$ 6. Esses aumentos alimentam a insatisfação dos eleitores e podem acelerar a mudança de poder no Congresso.
Repercussões nos mercados financeiros globais
As decisões do Congresso sobre gastos públicos e tributação afetam diretamente as expectativas dos investidores quanto à sustentabilidade das contas federais americanas. Caso o Congresso favoreça um aumento de despesas sem correspondente elevação de arrecadação, os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA tendem a subir, pressionando os juros de longo prazo. Por outro lado, um bloqueio à agenda expansionista de Trump pode conter a alta dos juros.
Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, destaca que uma vitória republicana nas duas casas ampliaria a margem de manobra de Trump para avançar com medidas de corte de impostos e desregulamentação, o que poderia ampliar o déficit público e gerar pressões inflacionárias nos EUA. Essa situação, por sua vez, poderia elevar o custo de captação de recursos para países emergentes, inclusive o Brasil.
Em contrapartida, se os democratas assumirem o controle da Câmara ou das duas casas, a fiscalização sobre o Executivo aumentaria, reduzindo a probabilidade de novos estímulos fiscais. Essa contenção poderia aliviar a pressão sobre os juros americanos, tornando os ativos de mercados emergentes mais atrativos e favorecendo a entrada de capitais no Brasil, a apreciação do real e a queda das taxas de juros locais.
Riscos e oportunidades para a economia brasileira
Do ponto de vista brasileiro, os principais canais de transmissão dos efeitos das midterms são o rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA e a cotação do dólar. Uma alta nos juros americanos eleva o custo de financiamento externo, pressionando o real e encarecendo a dívida externa do Brasil. Já uma queda nos juros nos EUA pode reduzir a atratividade dos títulos americanos, desviando fluxo de capitais para o Brasil.
Além disso, a política cambial brasileira pode reagir à volatilidade do dólar decorrente das incertezas políticas nos EUA. Se o mercado perceber risco de bloqueio à agenda de Trump, o dólar pode se fortalecer, gerando pressão inflacionária no Brasil e exigindo respostas mais agressivas do Banco Central.
- Possível “onda azul”: controle democrata das duas casas, maior fiscalização e menor espaço para cortes de impostos.
- Vitória republicana nas duas casas: expansão de agenda fiscal, risco de aumento de déficit e pressão sobre juros americanos.
- Cenário dividido: impasses legislativos, maior volatilidade nos mercados e incerteza cambial.
Perspectivas para o futuro próximo
Analistas concordam que o resultado das midterms será um ponto de inflexão para a política econômica dos EUA e, por extensão, para a economia mundial. O Brasil, como grande receptor de fluxos de capital e exportador de commodities, sentirá os efeitos tanto nos custos de financiamento quanto na taxa de câmbio. Investidores devem monitorar de perto os desdobramentos nas negociações orçamentárias e nas confirmações de indicados nos comitês do Senado.
Em síntese, a disputa pelo Congresso americano traz consigo um conjunto de cenários que podem mudar o panorama econômico global. Para o Brasil, a atenção deve permanecer nos indicadores de juros americanos, nos rendimentos dos títulos do Tesouro e na trajetória do dólar, que determinarão a política monetária interna e a atratividade do país para investidores estrangeiros nos próximos meses.








