O papel do ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na corrida presidencial do Brasil emergiu como a grande questão que paira sobre o pleito, segundo reportagem publicada nesta segunda‑feira, 28 de outubro, pelo jornal The New York Times. A matéria destaca que, na reta final da disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), o Brasil tem adotado medidas para blindar seu processo eleitoral contra uma eventual interferência americana.
Contexto da disputa eleitoral no Brasil
A eleição de 2024 representa, para o NYT, o teste mais significativo da estratégia de Trump de expandir a influência dos Estados Unidos na América Latina. Desde que o republicano voltou à Casa Branca, sete eleições presidenciais foram vencidas por candidatos conservadores na região, e esses governos têm buscado alinhar suas políticas ao Washington.
O cenário brasileiro, porém, traz particularidades que o diferenciam dos demais países latino‑americanos. O país está dividido entre a candidatura de Lula, que busca retomar políticas de esquerda, e a de Flávio Bolsonaro, que representa a ala conservadora e tem laços estreitos com grupos de direita nos EUA.
Em meio a essa polarização, a imprensa americana aponta o Brasil como o “principal teste final” da capacidade de Trump de influenciar resultados eleitorais fora de seu território. Embora o ex‑presidente ainda não tenha declarado apoio oficial a nenhum dos candidatos, sua administração tem tomado atitudes que podem favorecer indiretamente o senador do PL.
Estratégias de influência dos Estados Unidos
O New York Times descreve uma série de medidas adotadas pelos EUA que podem ser interpretadas como tentativas de moldar o ambiente político brasileiro. Entre elas, destacam‑se ações que vão desde a rotulagem de organizações criminosas como terroristas até a imposição de sanções econômicas.
- Classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas – medida defendida publicamente pelo senador Flávio Bolsonaro.
- Sanções contra autoridades brasileiras – a mais conhecida foi a aplicação, posteriormente suspensa, da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, do STF.
- Tarifaço sobre mercadorias brasileiras – aumento de tarifas que afeta exportações estratégicas.
- Questionamentos sobre a segurança das urnas eletrônicas – discurso que alimenta dúvidas sobre a integridade do voto.
- Pressões nos setores de mineração estratégica – discussões sobre acesso a minerais críticos para a indústria de alta tecnologia.
Em março, Flávio Bolsonaro discursou no CPAC, evento que reúne a ultradireita global no Texas, afirmando que o Brasil poderia se tornar “o mais poderoso aliado” dos EUA ou um “antagonista”, dependendo do resultado da eleição. Essa declaração reforça a percepção de que há interesse direto dos americanos em ver um candidato alinhado com Washington chegar ao poder.
No entanto, o jornal ressalta que ainda não há clareza sobre a eficácia dessas estratégias. O NYT aponta que esforços para beneficiar o senador do PL podem, paradoxalmente, gerar um efeito de “onda anti‑Trump”, como ocorreu em eleições no Canadá, Austrália e outros países, potencialmente impulsionando o apoio a Lula.
Reações brasileiras e o panorama internacional
Diante da possibilidade de interferência estrangeira, órgãos de inteligência do Brasil elevaram a manipulação nas redes sociais a prioridade nacional. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também intensificou suas ações contra a desinformação, solicitando que gigantes da tecnologia como Google e Meta apresentem planos concretos para combater conteúdos enganosos produzidos com inteligência artificial.
Paralelamente, o Brasil tem buscado apoio internacional para reforçar a credibilidade de seu processo eleitoral. Diplomatas da União Europeia, Canadá, Japão, Austrália e outras nações discutem informalmente estratégias para reagir a eventuais tentativas de interferência após a votação.
Observadores externos ampliaram seu monitoramento do pleito. Em um movimento inesperado, o Centro Carter – organização independente de monitoramento sediada nos Estados Unidos – concordou em enviar especialistas ao Brasil, motivado, em parte, por preocupações com possíveis interferências externas.
Entrevistados pelo New York Times, que falaram sob condição de anonimato, apontam que tanto a campanha de Flávio Bolsonaro quanto o Departamento de Estado americano não responderam aos pedidos de comentário. Essa falta de posicionamento oficial aumenta a incerteza sobre a real extensão da influência americana.
Em resumo, a eleição de 2024 no Brasil está sendo observada não apenas como um evento interno, mas como um campo de teste para a política externa de Trump. Enquanto o país se prepara para garantir a lisura do voto, a comunidade internacional acompanha de perto, pronta para intervir caso sinais de manipulação se confirmem.








