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Tributo de Moisés Navarro revive a obra de Jessé, mas perde foco no repertório

O álbum Alguém cantando, lançado em 13 de novembro de 2023 pela Companhia de Discos do Brasil, presta homenagem ao cantor Jessé, falecido há 33 anos em um acidente de carro próximo a Ourinhos (SP). A obra, idealizada pelo mineiro Moisés Navarro, reúne versões de músicas que marcaram a carreira do artista fluminense.

Origem e trajetória de Jessé

Jessé Florentino Santos nasceu em 25 de abril de 1952, na cidade de Niterói (RJ). Nos anos 1970, como muitos cantores brasileiros da época, adotou pseudônimos em inglês para ganhar maior aceitação no mercado fonográfico, primeiro como Christie Burgh e depois como Tony Stevens.

Em 1976, ele gravou a versão brasileira da canção “Flying”, originalmente lançada por Chris de Burgh, e começou a construir uma identidade que misturava a sonoridade internacional com raízes nacionais.

O ponto de virada ocorreu em 1980, quando, ainda vocalista do grupo Placa Luminosa, participou do Festival MPB‑80 da TV Globo com a música “Porto solidão”, composta por Zeca Bahia a partir de versos de Antonio Ginco. A apresentação lhe rendeu visibilidade nacional e consolidou o nome artístico Jessé.

Ao longo da década de 80, Jessé lançou sucessos como “O sorriso ao pé da escada” e “Eterno menino”, explorando baladas românticas e canções de protesto, sempre com a voz potente que o caracterizava.

Em 1992, gravou seu último álbum, Raízes, antes de perder a vida em 29 de março de 1993, em um trágico acidente de carro.

O álbum “Alguém cantando” de Moisés Navarro

Moisés Navarro, conhecido por projetos de resgate de repertório clássico da MPB, decidiu homenagear Jessé com um álbum que traz versões de dez músicas selecionadas entre as gravações mais emblemáticas do artista.

O projeto foi produzido sob a direção musical do pianista Alexandre Vianna, responsável pelos arranjos que buscam equilibrar a nostalgia da época com uma sonoridade contemporânea.

O título do álbum faz referência à canção de Caetano Veloso, lançada em 1977 no álbum Bicho e regravada por Jessé em 1987 no disco Eterno menino. Essa escolha simboliza a conexão entre duas gerações de músicos brasileiros.

Além de Moisés Navarro, o disco conta com participações especiais de Claudya, Zeca Baleiro e Chico Lobo, que emprestam suas vozes a duetos que buscam reproduzir a intensidade emocional das interpretações originais.

Seleção de músicas e críticas ao repertório

O álbum apresenta as seguintes faixas:

  • Porto solidão – a música que alavancou a carreira de Jessé;
  • A noite do meu bem (Dolores Duran, 1959);
  • Onde está você (Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini, 1963);
  • Romaria (Renato Teixeira, 1977);
  • Irmãos da lua (Renato Teixeira, 1982);
  • Campo minado (Mário Maranhão, Mário Marcos e Maximiliano);
  • Voa, liberdade (Mário Maranhão, Eunice Barbosa e Mário Marcos);
  • Solidão de amigos (Zeca Baleiro e Chico Lobo, 1982);
  • Paz do meu amor (Luiz Vieira, 1963);
  • Alguém cantando (Caetano Veloso, 1977).

Embora a iniciativa seja louvável, críticos apontam que mais da metade das canções escolhidas não são as mais lembradas do público quando se pensa em Jessé. Faixas como “A noite do meu bem” e “Romaria” foram interpretadas por Jessé em momentos específicos, mas não marcaram sua identidade musical da mesma forma que “Porto solidão” ou “Campo minado”.

Essa escolha, segundo analistas, pode enfraquecer a proposta de um tributo que busca reviver a essência do cantor, ao misturar sucessos consagrados com obras menos reconhecidas.

Por outro lado, a presença de arranjos modernos e a colaboração de artistas contemporâneos trazem frescor ao projeto, permitindo que novos públicos descubram o legado de Jessé.

Legado e impacto cultural

Jessé permanece como um dos nomes mais emblemáticos da MPB dos anos 80, lembrado por sua voz marcante e por canções que atravessam gerações. Seu estilo, que mesclava romantismo e crítica social, influenciou artistas posteriores que buscaram equilibrar popularidade e conteúdo lírico.

O álbum Alguém cantando chega em um momento em que o mercado musical brasileiro redescobre o valor dos discos físicos e das curadorias temáticas, oferecendo ao colecionador uma peça que combina história e inovação.

Independentemente das críticas ao repertório, a obra cumpre um papel importante ao manter viva a memória de Jessé, reforçando a necessidade de revisitar artistas que, embora tenham partido cedo, deixaram um legado duradouro.

Para os fãs de longa data, o disco representa uma oportunidade de reviver emoções; para os novos ouvintes, ele funciona como porta de entrada para explorar a discografia original do cantor, que ainda hoje inspira covers, podcasts e programas de rádio dedicados à música brasileira.

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