O cantor Netinho, diagnosticado com linfoma não Hodgkin em março de 2025, faleceu na manhã de 13 de outubro de 2026 após a doença retornar de forma agressiva. Seu caso reacendeu o debate sobre a terapia CAR‑T, um tratamento inovador que já está disponível no Brasil, porém com custos que podem chegar a quatro milhões de reais.
Entendendo o linfoma não Hodgkin
O linfoma não Hodgkin (LNH) engloba mais de 40 subtipos diferentes de tumores que se originam no sistema linfático. Cada subtipo apresenta um ritmo de progressão próprio, variando de formas indolentes a extremamente agressivas.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a incidência de LNH tem aumentado nos últimos anos, especialmente entre adultos jovens e idosos. A Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) estima que as taxas de cura fiquem entre 60% e 70%, dependendo do subtipo e da extensão da doença.
O diagnóstico precoce costuma melhorar o prognóstico, mas quando o tumor reaparece após a primeira linha de tratamento, as opções se reduzem. O tempo de remissão é um fator crítico: recaídas logo após a quimioterapia inicial costumam indicar um curso mais desfavorável.
A terapia CAR‑T: como funciona
A terapia de células CAR‑T (Receptor de Antígeno Quimérico de Células T) representa uma nova fronteira na oncologia, ao transformar o próprio sistema imunológico em um exército contra o câncer. O procedimento segue etapas bem definidas:
- Coleta dos linfócitos T: o paciente passa por uma aférese para retirar as células do sangue.
- Modificação genética: em laboratório, os linfócitos são inseridos com um gene que codifica um receptor específico para antígenos do tumor.
- Expansão: as células modificadas são cultivadas até atingir um número suficiente para a terapia.
- Infusão: as células CAR‑T são reinjetadas no paciente, onde reconhecem e atacam as células cancerígenas.
O processo pode durar de duas a quatro semanas, exigindo acompanhamento intensivo antes e depois da infusão. A Anvisa aprovou a CAR‑T no Brasil para alguns tipos de leucemia, linfoma e mieloma múltiplo, tornando o tratamento acessível em centros de referência.
Eficácia, riscos e custos no Brasil
Estudos recentes apontam taxas de resposta entre 70% e 90% em pacientes com LNH que já haviam falhado em outras terapias. Em alguns casos, a remissão pode ser duradoura e até completa, como demonstrado por pacientes internacionais que receberam o tratamento em fase avançada.
Entretanto, a terapia não está isenta de efeitos colaterais. Nos primeiros dias após a infusão, pode ocorrer síndrome de liberação de citocinas (CRS), caracterizada por febre alta, queda de pressão e, em casos graves, insuficiência orgânica. Alterações neurológicas temporárias, como confusão e alterações de linguagem, também são relatadas.
O preço do tratamento permanece o maior obstáculo. O custo total varia de R$ 2 milhões a R$ 4 milhões por paciente, incluindo:
- Coleta e processamento das células T.
- Manipulação genética e expansão em laboratório.
- Internação em unidade de terapia intensiva para monitoramento da CRS.
- Medicamentos de suporte e acompanhamento pós‑infusão.
Embora alguns planos de saúde e o Sistema Único de Saúde (SUS) estejam iniciando negociações, a maioria dos pacientes ainda depende de recursos próprios ou de campanhas de arrecadação para arcar com o valor.
O legado de Netinho e o futuro da oncologia
Netinho foi diagnosticado com LNH em março de 2025, entrou em remissão ainda naquele ano e viu a doença ressurgir em 2026, desta vez de forma mais agressiva. Apesar de ter buscado tratamento em hospitais de referência, não há informações públicas que confirmem se ele chegou a ser avaliado para a terapia CAR‑T.
O caso do cantor reacendeu a discussão sobre a necessidade de ampliar o acesso a tratamentos avançados no país. Especialistas apontam que, além do alto custo, a falta de centros capacitados e a escassez de profissionais treinados limitam a disseminação da terapia.
Pesquisas em andamento buscam adaptar a CAR‑T para tumores sólidos, como câncer de pulmão, mama e cérebro, embora ainda estejam nos estágios iniciais. O sucesso nesses ensaios poderia ampliar ainda mais o leque de pacientes beneficiados.
Enquanto isso, organizações de pacientes e associações médicas vêm pressionando o governo a incluir a terapia CAR‑T nas políticas públicas de saúde, argumentando que o investimento pode gerar economia a longo prazo ao reduzir a necessidade de tratamentos repetitivos e hospitalizações prolongadas.
Para quem enfrenta o linfoma não Hodgkin, a mensagem permanece clara: a quimioterapia ainda é a primeira linha de defesa, mas a CAR‑T surge como uma alternativa poderosa quando as opções convencionais se esgotam. O desafio agora é equilibrar eficácia, segurança e acessibilidade, garantindo que mais brasileiros possam se beneficiar dessa inovação.








