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Tarifas americanas pressionam exportadores brasileiros e podem encarecer o consumidor

O governo dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, implementou novas tarifas sobre uma série de produtos importados, incluindo calçados produzidos no Brasil. As medidas entraram em vigor em julho de 2023 e afetam diretamente as exportações brasileiras para o maior mercado externo do país. O objetivo declarado era proteger a indústria americana, mas os efeitos colaterais já são visíveis tanto nos EUA quanto no Brasil.

Impacto das tarifas nos preços ao consumidor americano

Um estudo recente do Federal Reserve de Nova York revelou que, até fevereiro de 2026, as tarifas adicionaram 2,9 pontos percentuais à inflação dos bens consumidos pelos americanos. Esse aumento reflete o custo extra que as empresas importadoras repassam aos clientes finais.

Além disso, a tarifa global de 10% anunciada em fevereiro deste ano tem potencial para elevar os preços ao consumidor em 2,6% ao longo de um ano. Embora pareça um número pequeno, ele se acumula rapidamente quando se trata de produtos de consumo diário.

  • Tarifa de 10% sobre todos os bens importados;
  • Inflação adicional de 2,9% nos EUA;
  • Preços ao consumidor podem subir 2,6% em 12 meses.

Setor calçadista brasileiro sente a pressão

No Brasil, as medidas comerciais anunciadas em julho estabeleceram sobretaxas que variam de 12,5% a 25% para diferentes categorias de produtos. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), essas duas rodadas de medidas abrangem 23,1% das exportações brasileiras para os EUA, com 16,5% das mercadorias sujeitas a uma carga acumulada de 37,5%.

O setor de calçados, que tem os EUA como um dos principais destinos, foi um dos mais atingidos. Entre janeiro e agosto de 2023, o Brasil exportou 62,45 milhões de pares, gerando US$ 541,45 milhões, mas registrou queda de 7,5% no volume e 16,8% na receita em relação ao mesmo período de 2022.

Os números da Abicalçados apontam para o pior desempenho desde 2020. Em agosto, foram enviados 7,13 milhões de pares, gerando US$ 70,8 milhões – quedas de 6,6% no volume e 8,1% na receita.

O mercado americano absorveu 7,38 milhões de pares, totalizando US$ 120,5 milhões, mas o volume recuou 4,1% e a receita despencou 22,8% frente ao mesmo período de 2022. O preço médio do calçado exportado para os EUA caiu 35,4%, chegando a US$ 17,20 por par.

Além da pressão tarifária, a mudança no perfil dos produtos vendidos aos EUA – com redução nas linhas de couro e de alto valor agregado – agravou a situação. A Argentina, segundo maior destino dos calçados brasileiros, também reduziu suas compras, registrando queda de 51,6% em volume e 55,6% em receita até agosto.

Com base nesses indicadores, a Abicalçados revisou sua projeção para 2026, estimando uma retração de 7,1% nas exportações de calçados, contra a expectativa anterior de 3,6%.

Perspectivas e estratégias para as empresas afetadas

Enquanto as exportações sofrem, as importações de calçados no mercado interno brasileiro avançam. Entre janeiro e agosto, 33 milhões de pares entraram no país, representando alta de 9,6% em relação ao mesmo período de 2022. O valor das importações subiu 11%, totalizando US$ 429,7 milhões, com China, Vietnã e Indonésia respondendo por cerca de 80% das unidades.

Esse cenário cria um dilema para os fabricantes que perderam acesso ao mercado americano. Muitos consideram redirecionar a produção para o consumo interno, mas enfrentam concorrência de produtos importados mais baratos.

Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados, descreve a situação como um “efeito pinça”: de um lado, a perda de demanda nos EUA, e do outro, a necessidade de competir com importações de baixo custo.

Algumas estratégias apontadas pelos especialistas incluem:

  • Reforçar a presença em mercados alternativos, como a União Europeia e a América Latina;
  • Investir em inovação e diferenciação de produto, focando em design e sustentabilidade;
  • Buscar acordos bilaterais que reduzam barreiras tarifárias específicas;
  • Adotar tecnologia de produção avançada para reduzir custos operacionais.

Além disso, o governo brasileiro tem avaliado medidas de apoio, como linhas de crédito específicas para exportadores afetados e programas de capacitação para melhorar a competitividade internacional.

Em síntese, embora o “tarifaço” dos EUA tenha gerado um efeito imediato nos preços ao consumidor americano, suas reverberações no Brasil são mais profundas, impactando a cadeia produtiva, o emprego e a estratégia de crescimento das empresas exportadoras.

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