Eva Umlauf, sobrevivente de Auschwitz, manifestou sua indignação após a vitória do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições estaduais da Saxônia‑Anhalt, realizadas no último domingo, em Munique. Ela relembra a libertação do campo em janeiro de 1945 e denuncia a volta de ideologias extremistas ao cenário político alemão.
Contexto da eleição e a nova força da AfD
O resultado preliminar da votação regional colocou o AfD a apenas um passo de governar um estado alemão, algo que não ocorria desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Pesquisas de opinião recentes apontavam um aumento do apoio à extrema‑direita em diversas regiões, incluindo a capital Berlim e o estado de Mecklemburgo‑Pomerânia Ocidental, onde as próximas urnas estão marcadas para 20 de setembro.
Fundado em 2013 como um movimento eurocético, o partido tem se afastado de suas origens e adotado um discurso nacionalista mais agressivo. Entre as principais propostas do AfD estão:
- Restrição da imigração, sobretudo de países considerados “culturalmente diferentes”.
- Saída do euro e retorno a políticas econômicas mais soberanas.
- Reaproximação com a Rússia, sob a justificativa de reduzir os custos energéticos.
- Negação de qualquer vínculo com o nazismo, ao mesmo tempo que acusa partidos tradicionais de silenciar a oposição.
Essas ideias têm encontrado ressonância entre eleitores cansados de crises econômicas e inseguranças sociais, gerando um ambiente propício ao avanço da agenda da extrema‑direita.
O testemunho de Eva Umlauf e a importância da memória
Eva Umlauf, nascida na Eslováquia e atualmente residente em Munique, dedica parte de sua vida a visitar escolas e contar sua experiência em Auschwitz. Pediatra e psicoterapeuta, ela também preside o Comitê Internacional de Auschwitz, órgão responsável pela preservação do campo e pela educação sobre o Holocausto.
Ao relatar a vitória do AfD, Umlauf disse estar “chocada” com a possibilidade de um movimento que, embora negue explicitamente laços com o nazismo, compartilha discursos de exclusão e intolerância. Ela enfatiza que a memória do Holocausto não pode ser reduzida a um capítulo histórico, mas deve servir como bússola moral para impedir a repetição de crimes contra a humanidade.
Em suas visitas a escolas, a sobrevivente costuma usar recursos visuais, como fotos de arquivos e objetos pessoais dos prisioneiros, para tornar a história mais tangível. Ela destaca que o medo, a desumanização e a negação dos direitos fundamentais são sinais de alerta que ainda ecoam nos discursos atuais da extrema‑direita.
Desafios e perspectivas para a democracia alemã
O avanço do AfD coloca à prova a resistência das instituições democráticas alemãs. Partidos tradicionais, como a União Cristã (CDU) e a Aliança Verde (Grüne), têm se pronunciado contra a normalização de ideias radicais e têm buscado formar coalizões para impedir que a extrema‑direita assuma o governo.
Especialistas alertam que a consolidação de um governo liderado pelo AfD pode influenciar políticas de educação, memória histórica e direitos humanos, áreas nas quais a Alemanha tem se destacado internacionalmente. A preservação de museus, memoriais e programas educativos sobre o Holocausto pode enfrentar cortes orçamentários ou revisões ideológicas.
Entretanto, a sociedade civil tem reagido de forma mobilizada. Organizações não‑governamentais, sindicatos e movimentos estudantis organizam protestos, debates e campanhas de informação para contrapor a narrativa da extrema‑direita. A participação de sobreviventes como Umlauf nas escolas tem se mostrado um elemento crucial para reforçar a resistência cultural.
O futuro da Saxônia‑Anhalt ainda depende da formação de alianças políticas nos próximos dias. Caso o AfD consiga governar, será necessário monitorar de perto a implementação de suas propostas e a forma como elas afetam a coesão social. Por outro lado, a união de partidos moderados pode criar um bloqueio eficaz, garantindo que valores democráticos e a memória do Holocausto permaneçam protegidos.








