Um levantamento nacional divulgado em novembro de 2024 mostrou que 48,5% dos médicos que atuam em unidades de terapia intensiva (UTI) de hospitais públicos e privados no Brasil apresentam elevado esgotamento emocional, sentindo-se incapazes de desempenhar suas funções tanto física quanto mentalmente.
Contexto e metodologia da pesquisa
A pesquisa, intitulada Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, foi conduzida pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). Foram coletadas respostas entre março e outubro de 2024, utilizando o Maslach Burnout Inventory (MBI), reconhecido como padrão‑ouro para medir a síndrome de burnout.
Participaram 2.338 médicos com, no mínimo, um ano de atuação contínua em UTI, distribuídos por 26 estados e o Distrito Federal. Cada participante respondeu a 22 situações relacionadas ao trabalho, que foram agrupadas em três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e realização profissional.
Além do MBI, um segundo questionário avaliou a satisfação com a vida, revelando que 54,2% dos médicos se consideram satisfeitos.
Principais achados: níveis de burnout e suas dimensões
Os resultados indicam que 68,9% dos intensivistas apresentaram ao menos uma das três dimensões de burnout alterada. Especificamente, 48,5% exibiram esgotamento emocional elevado, enquanto 16% demonstraram nível agudo de despersonalização, caracterizado por distanciamento afetivo e perda de empatia.
Quanto à realização profissional, 46,4% dos médicos relataram baixa sensação de realização, apontando para um descontentamento crescente no exercício da especialidade.
Os dados ainda revelam que o risco de burnout diminui 20% entre os profissionais que mantêm um sono saudável e 25% entre aqueles que se declaram satisfeitos com a vida.
Causas apontadas para o esgotamento
O estudo identificou três categorias principais que alimentam o desgaste mental dos intensivistas:
- Carga de trabalho extensa: plantões prolongados, múltiplos vínculos de emprego e jornadas que ultrapassam 72 horas seguidas.
- Exposição a situações críticas: lidar diariamente com dor, sofrimento, morte e decisões que exigem rapidez e assertividade.
- Pressão institucional: exigência de presença 24 h por dia, sete dias por semana, sem garantias de descanso adequado.
Essas condições criam um ambiente propício ao estresse crônico, desencadeando a síndrome de burnout.
Perfil dos profissionais e fatores de proteção
A pesquisa segmentou os médicos em três grupos, de acordo com sua qualificação:
- Grupo 1: profissionais com registro de qualificação de especialista (RQE) em medicina intensiva.
- Grupo 2: especialistas de áreas correlatas (clínica médica, cirurgia geral, pediatria, cardiologia, nefrologia, anestesiologia, pneumologia) que atuam em UTI.
- Grupo 3: médicos sem registro específico ou com RQE em áreas não relacionadas à UTI, mas que exercem funções na unidade.
Os resultados mostraram que a educação continuada e a titulação acadêmica funcionam como fatores de proteção, reduzindo a vulnerabilidade ao estresse crônico.
Além da qualificação, hábitos de vida saudáveis – como prática regular de atividade física, convívio social, lazer e alimentação equilibrada – foram associados a maior satisfação com a vida e menor risco de burnout.
Consequências para a saúde dos profissionais e dos pacientes
O esgotamento emocional, componente central do burnout, se manifesta como exaustão física e mental, comprometendo a capacidade de tomada de decisão e a empatia necessária ao cuidado intensivo. A despersonalização pode levar a atitudes frias ou cínicas no trato com pacientes e colegas, afetando a qualidade da assistência.
Quando a realização profissional está baixa, há risco de aumento da rotatividade, absenteísmo e até de erros médicos, impactando diretamente a segurança do paciente.
Por outro lado, profissionais que mantêm um sono adequado e relatam alta satisfação com a vida apresentam menor propensão a desenvolver a síndrome, indicando que intervenções voltadas ao bem‑estar global são essenciais.
Recomendações e caminhos para a mitigação
Ederlon Rezende, presidente do conselho consultivo da Amib, destaca que “a medicina intensiva precisa garantir a presença de um médico 24 h por dia, sete dias por semana, mas isso não pode ser feito às custas da qualidade do sono”. Ele recomenda limitar plantões a no máximo 24 horas seguidas e evitar escalas que imponham noites consecutivas.
Além da reorganização de escalas, a Amib sugere a implementação de programas de apoio psicológico, sessões de debriefing pós‑evento crítico e incentivo à educação continuada, que reforçam a resiliência e a sensação de competência.
Instituições de saúde também devem promover ambientes de trabalho que favoreçam a convivência social, a prática de atividades físicas e a alimentação saudável, reconhecendo esses hábitos como parte integrante da prevenção ao burnout.
Por fim, a pesquisa reforça a necessidade de monitoramento periódico da saúde mental dos intensivistas, utilizando instrumentos validados como o MBI, para identificar precocemente sinais de desgaste e intervir antes que evoluam para quadros graves.








