A nova forma de profilaxia pré‑exposição (PrEP) contra o HIV, administrada por injeção, está prevista para entrar no Sistema Único de Saúde (SUS) nos próximos meses, caso a Conitec conclua sua incorporação. O medicamento, cabotegravir, será oferecido inicialmente a pessoas em situação de maior vulnerabilidade social que ainda não utilizam a PrEP oral. A iniciativa busca ampliar as opções de prevenção em todo o território nacional, reforçando o compromisso do Ministério da Saúde com a redução de novas infecções.
Prioridades de distribuição
Os documentos da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) apontam que as primeiras doses devem chegar a quem enfrenta barreiras de acesso aos serviços de saúde. Entre os grupos contemplados estão:
- Pessoas em situação de rua ou moradia precária;
- Indivíduos que trabalham em ocupações informais com alto risco de exposição;
- Adolescentes e jovens adultos que ainda não aderiram à PrEP oral por dificuldades logísticas;
- Populações transgênero e homens que fazem sexo com homens que relataram falhas no acompanhamento médico.
Essas categorias foram definidas com base em estudos que evidenciam maior incidência de HIV em contextos de exclusão social. A escolha não pretende substituir a PrEP oral, mas garantir que quem não consegue manter a rotina diária de comprimidos tenha acesso a uma alternativa eficaz.
Como funciona o cabotegravir
O cabotegravir é um antirretroviral de longa duração que bloqueia uma etapa essencial da replicação do HIV. A primeira aplicação é feita por via intramuscular, seguida de uma segunda dose após um mês. A partir daí, as injeções de manutenção são realizadas a cada dois meses, proporcionando proteção contínua por mais de um ano com apenas seis doses.
Antes de iniciar o esquema, é imprescindível confirmar que o paciente não vive com HIV. Testes de diagnóstico devem ser repetidos a cada dois ou três meses, já que o fármaco pode permanecer no organismo por até um ano após a última aplicação. Caso haja atraso ou interrupção nas injeções, o risco de infecção pode aumentar, exigindo monitoramento rigoroso.
Benefícios e eficácia comprovada
Ensaios clínicos internacionais demonstraram que a PrEP injetável apresenta desempenho superior à versão oral diária. No estudo HPTN 083, a redução relativa do risco de infecção foi de 66 %; no HPTN 084, a eficácia chegou a 89 %. Uma meta‑análise considerada pela Conitec apontou uma redução média de 79 % em populações de alto risco.
Esses resultados reforçam a importância de oferecer opções diversificadas de prevenção. Para quem tem dificuldade em lembrar de tomar a pílula diariamente, a aplicação bimestral pode representar uma solução prática e menos suscetível a falhas de adesão.
Desafios e próximos passos
Apesar do parecer favorável da Conitec em agosto, ainda não há data definida para a chegada das primeiras doses ao SUS. A definição dos critérios definitivos de elegibilidade dependerá da conclusão do processo de incorporação e das regras de implementação que serão estabelecidas pelos gestores do Ministério da Saúde.
A GSK, fabricante do cabotegravir, submeteu à Conitec um pedido que inicialmente focava em homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero entre 15 e 30 anos. Durante a avaliação, o escopo foi ampliado para incluir todas as pessoas sexualmente ativas a partir de 15 anos que vivam em contextos de vulnerabilidade.
O esquema de dosagem aprovado contém 600 mg do medicamento em 3 mL. A bula da Anvisa permite ainda uma fase oral opcional antes das injeções, embora a maioria dos protocolos adotados prefira iniciar diretamente com a aplicação intramuscular.
Os profissionais de saúde precisarão ser capacitados para realizar as injeções, monitorar efeitos adversos e garantir a continuidade do acompanhamento laboratorial. Além disso, campanhas de informação são essenciais para esclarecer a população sobre a diferença entre a PrEP oral e a injetável, evitando confusões que possam comprometer a adesão.
Em síntese, a introdução da PrEP injetável pelo SUS representa um avanço significativo na estratégia nacional de combate ao HIV. Ao focalizar grupos vulneráveis e oferecer uma alternativa de longo prazo, o programa tem potencial para reduzir drasticamente a incidência da infecção, sobretudo entre aqueles que historicamente enfrentam maiores obstáculos ao acesso aos serviços de saúde.








