A Polícia Federal divulgou nesta terça‑feira um relatório detalhado que evidencia uma série de encontros presenciais, ligações telefônicas e mensagens trocadas entre o senador Flávio Bolsonaro, do PL, e o ex‑banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário da holding Master. O documento foi elaborado a partir da extração de dados do celular de Vorcaro e de análises de inteligência financeira do Coaf, e cobre interações ocorridas principalmente no segundo semestre de 2025. As informações apontam para uma relação direta que teria facilitado aportes financeiros ao filme biográfico “Dark Horse”, sobre o ex‑presidente Jair Bolsonaro.
Contexto da investigação
Os investigadores da Polícia Federal iniciaram a apuração após receberem denúncias anônimas que sugeriam um possível vínculo entre o senador e o empresário. A partir daí, foram requisitados mandados de busca e apreensão nos escritórios de Vorcaro, bem como a cooperação de provedores de telefonia e de aplicativos de mensagens.
Com o celular de Vorcaro em mãos, a equipe de perícia digital conseguiu reconstruir uma cronologia precisa de chamadas, mensagens de texto e mensagens instantâneas enviadas ao número registrado como pertencente a Flávio Bolsonaro. Paralelamente, relatórios do Coaf revelaram movimentações financeiras suspeitas que foram cruzadas com os períodos de contato entre os dois homens.
O relatório da PF destaca que, a partir de julho de 2025, a frequência dos contatos aumentou significativamente, coincidindo com o início da captação de recursos para a produção da cinebiografia. Em várias ocasiões, Flávio teria solicitado atualizações sobre o andamento das gravações, bem como cobrado pagamentos que ainda não haviam sido realizados.
Além das provas técnicas, os agentes coletaram depoimentos de funcionários da produtora e de assessores de ambos os lados, que confirmaram a existência de reuniões presenciais em hotéis de São Paulo e no Rio de Janeiro. Esses encontros foram descritos como “negociações de patrocínio” pelos próprios envolvidos.
Detalhes dos contatos entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro
O relatório enumera mais de trinta interações, entre chamadas de voz, mensagens de texto e trocas no aplicativo WhatsApp. Em muitas delas, Flávio aparece como interlocutor direto, solicitando detalhes sobre valores já repassados e sobre novos aportes necessários para a continuidade das filmagens.
Um dos trechos mais reveladores mostra Flávio cobrando Vorcaro por um pagamento atrasado de R$ 2,5 milhões, referente a uma fase de produção que já havia sido concluída. O senador, segundo o registro, ameaçou acionar medidas judiciais caso o valor não fosse quitado imediatamente.
Nas mensagens, também são observados pedidos de “cobertura de custos de locação” e de “ajustes de cronograma”, indicando que o senador acompanhava de perto o desenvolvimento da obra. Em um momento, Flávio enviou um documento em PDF que continha um calendário detalhado das gravações, sinalizando seu envolvimento operacional.
Para facilitar a visualização dos pontos críticos apontados pelos investigadores, a PF destacou cinco áreas que exigem aprofundamento:
- Identificação dos fluxos financeiros entre Vorcaro e a produtora do filme.
- Verificação da legalidade dos repasses sob a legislação de patrocínio político.
- Análise da participação de assessores do senador nas negociações.
- Relação entre os pagamentos e a eventual obtenção de benefícios eleitorais.
- Possível uso de contas de terceiros para ocultar a origem dos recursos.
Essas questões foram consideradas essenciais para determinar se houve violação das normas de financiamento de campanha ou se a operação configurou apenas uma transação comercial privada.
Flávio Bolsonaro, ao ser questionado sobre o conteúdo do relatório, reconheceu ter entrado em contato com Vorcaro, mas sustentou que a relação se limitou a uma captação de patrocínio para o filme, sem que houvesse recebimento direto de valores. O senador ainda afirmou que todas as transações foram realizadas dentro da legalidade e que nenhum recurso foi usado para fins eleitorais.
Repercussões políticas e jurídicas
A divulgação do relatório gerou forte reação nos corredores do Congresso Nacional e nas redes sociais. Lideranças do PL pediram cautela e ressaltaram que ainda não há conclusão definitiva sobre eventuais ilícitos.
Por outro lado, partidos de oposição intensificaram as críticas, acusando Flávio de utilizar a produção cinematográfica como fachada para movimentar recursos que poderiam influenciar sua candidatura à Presidência nas próximas eleições.
Advogados da defesa do senador ingressaram com pedido de retirada integral do sigilo dos autos, argumentando que a transparência total poderia prejudicar a estratégia de campanha e a imagem da família Bolsonaro. A decisão ainda está pendente nos tribunais.
Especialistas em direito eleitoral apontam que, caso seja comprovado que os recursos destinados ao filme foram usados como aporte de campanha, Flávio Bolsonaro poderá enfrentar sanções que vão desde a cassação do mandato até a inelegibilidade por oito anos.
Enquanto isso, o próprio Daniel Vorcaro tem evitado comparecer a sessões públicas, mas sua equipe jurídica afirmou que todas as transações foram feitas em conformidade com as normas de mercado e que não há indícios de crime.
O caso ainda está em fase de coleta de provas, e a Polícia Federal indicou que continuará analisando documentos bancários, contratos de produção e mensagens eletrônicas para montar um dossiê completo. O desfecho da investigação poderá influenciar significativamente o cenário político nas próximas eleições, especialmente se houver implicações para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.








