Celina Schinen, residente de Ribeirão Preto, recebeu a terapia CAR‑T em junho de 2025 após uma ordem judicial que garantiu o acesso ao tratamento. O caso ocorreu um ano após a recaída de seu mieloma múltiplo, um câncer incurável da medula óssea. A decisão judicial tornou‑se o ponto de virada para uma paciente que já havia passado por quimioterapia, transplante de medula e manutenção mensal.
Do diagnóstico ao tratamento padrão
Em outubro de 2024, Celina percebeu que o cansaço habitual nas corridas havia se transformado em falta de fôlego. Sangramentos nasais e um hemograma com anemia severa levaram ao encaminhamento para um hematologista. O especialista confirmou, por meio de exames de imagem e biópsia, o diagnóstico de mieloma múltiplo.
A primeira linha de combate foi a quimioterapia iniciada em dezembro de 2024, seguida por um transplante de medula óssea em maio de 2025. Após o transplante, Celina passou por um período de consolidação e entrou na fase de manutenção, realizando exames de controle a cada mês. Apesar da resposta inicial, a doença recidivou cerca de um ano depois, colocando a paciente em busca de alternativas mais avançadas.
Como funciona a terapia CAR‑T
A terapia CAR‑T (Chimeric Antigen Receptor T‑cell) utiliza os próprios linfócitos T do paciente como “fábricas de armas” contra o câncer. O processo começa com a coleta de sangue, da qual são isolados os linfócitos T. Em laboratório, essas células recebem um receptor sintético que reconhece um marcador específico presente nas células tumorais.
No caso do mieloma múltiplo, o alvo mais comum é a proteína BCMA, presente na superfície das células malignas. Quando a célula modificada volta ao organismo, ela se liga à BCMA como uma chave que abre a fechadura do tumor, desencadeando sua destruição. A eficácia depende da precisão da “chave” e da capacidade do sistema imunológico de aceitar a nova arma.
Etapas da produção e administração da CAR‑T
- Coleta de sangue periférico e separação dos linfócitos T por centrifugação.
- Envio das células a uma fábrica especializada nos Estados Unidos ou na Europa.
- Transdução viral: um vírus inativado insere o gene do receptor CAR no DNA das células T.
- Expansão em cultura até atingir a dose terapêutica necessária.
- Congelamento e transporte de volta ao centro de tratamento.
- Pré‑condicionamento com quimioterapia de baixa dose para reduzir linfócitos nativos.
- Infusão das células CAR‑T na corrente sanguínea do paciente.
Alguns dias antes da infusão, Celina recebeu um esquema de quimioterapia de condicionamento, que diminuiu temporariamente seu número de linfócitos, facilitando a ação das novas células. A infusão foi realizada em ambiente hospitalar, com monitoramento intensivo durante as primeiras 48 horas.
Riscos, monitoramento e custos envolvidos
Embora a CAR‑T ofereça esperança, ela traz efeitos colaterais graves que exigem vigilância constante. A síndrome de liberação de citocinas (CRS) pode gerar febre alta, queda de pressão e falência de órgãos se não for tratada rapidamente. Além disso, reações neurotóxicas podem causar confusão, dificuldades de fala e, em casos raros, convulsões.
Para mitigar esses riscos, a equipe do Hospital de Ribeirão Preto contou com uma unidade de terapia intensiva dedicada e protocolos de intervenção precoce, incluindo o uso de tocilizumabe para controlar a CRS. Celina permaneceu internada por oito dias, período em que recebeu avaliações neurológicas diárias.
O custo total da terapia ultrapassou R$ 4 milhões, abrangendo coleta, transporte internacional, manufatura em laboratório GMP, hospitalização e medicamentos de suporte. O valor fez com que a justiça fosse acionada, garantindo o financiamento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) após a decisão judicial.
Especialistas apontam que, apesar do preço elevado, a CAR‑T pode reduzir custos a longo prazo ao evitar múltiplos ciclos de quimioterapia e internações recorrentes. Ainda assim, o acesso permanece restrito a poucos pacientes que conseguem mobilizar recursos legais ou financeiros.
Impacto da decisão judicial e perspectivas futuras
A ordem judicial que beneficiou Celina abriu precedentes para outros pacientes com neoplasias hematológicas avançadas. Advogados de saúde têm usado argumentos de direito à saúde integral para pressionar o Estado a custear tratamentos inovadores quando não há alternativas eficazes.
Na comunidade médica, o caso reforça a necessidade de protocolos claros para indicação de CAR‑T, bem como a importância de parcerias internacionais que reduzam o tempo de fabricação. Pesquisas em andamento buscam tornar a terapia “off‑the‑shelf”, ou seja, pronta para uso sem a necessidade de personalização, o que poderia baixar significativamente os custos.
Para Celina, a experiência tem sido de esperança renovada. Embora ainda esteja sob observação intensiva, os exames de imagem realizados ao fim do primeiro mês mostraram redução significativa da carga tumoral. Ela compartilha sua história em grupos de apoio, incentivando outras pacientes a buscar informações sobre terapias celulares.
O caso ilustra como a convergência entre ciência de ponta, decisões judiciais e políticas de saúde pode transformar a vida de quem luta contra o câncer. À medida que mais países adotam a CAR‑T como padrão de tratamento, espera‑se que a justiça e a economia se ajustem para tornar essa terapia acessível a um número maior de pacientes.








