Na terça‑feira, 22 de setembro de 2026, a 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas começou em Nova Iorque, trazendo à tona um apelo inesperado: a própria sobrevivência da instituição. O plenário, que reúne representantes de 193 países, será o palco de um discurso central focado na defesa institucional da ONU diante de crises financeiras, políticas e de credibilidade.
Desafios financeiros e políticos que ameaçam a ONU
Desde a sua fundação em 1945, a ONU tem sido o principal fórum multilateral para a resolução de conflitos e a promoção de direitos humanos. Contudo, nas últimas duas décadas, a organização tem enfrentado cortes orçamentários severos, sobretudo após a administração dos Estados Unidos reduzir seu aporte, que representa mais de 20% do orçamento total.
Os cortes afetam programas essenciais, como ajuda humanitária, missões de paz e iniciativas de desenvolvimento sustentável. Além disso, a credibilidade da ONU tem sido questionada por líderes que a acusam de parcialidade e ineficiência, gerando um clima de desconfiança entre os membros.
Um exemplo marcante são as críticas do presidente dos EUA, Donald Trump, que acusa a instituição de ser enviesada e de falhar em impor sanções efetivas. Desde que retomou a presidência, seu governo tem suspendido repasses e cancelado projetos, intensificando a pressão sobre o orçamento da organização.
- Redução de mais de 15% no financiamento anual dos EUA;
- Suspensão de projetos de saúde em regiões vulneráveis;
- Cancelamento de missões de paz em áreas de conflito ativo.
Essas medidas, combinadas com a recusa de países como Israel e Rússia em cumprir resoluções do Conselho de Segurança, criam um cenário de paralisação institucional que o secretário‑geral António Guterres reconhece como crítico.
Propostas de reforma e foco essencial para a sobrevivência
Em entrevista recente, Guterres destacou a necessidade de “voltar ao básico”. O objetivo é transformar a ONU em uma entidade mais ágil, focada em funções essenciais como mediação de conflitos, ajuda humanitária e defesa do direito internacional.
Richard Gowan, diretor do Grupo de Assuntos Globais e Crises Internacionais, publicou um artigo intitulado “Enxuguem a ONU”, no qual propõe a eliminação de burocracias excessivas e a redução de cúpulas grandiosas. Segundo ele, a próxima liderança deve priorizar diplomacia prática e enxuta.
As propostas incluem:
- Concentrar recursos nas missões de paz e ajuda emergencial;
- Reformar o Conselho de Segurança para torná‑lo mais representativo;
- Estabelecer mecanismos de financiamento mais estáveis e diversificados;
- Promover transparência nas decisões e na alocação de verbas.
Além disso, a própria ONU reconhece que precisa ouvir sugestões dos líderes mundiais. Guterres realizará dezenas de reuniões bilaterais durante a Assembleia para coletar ideias e buscar apoio financeiro.
O discurso central da Assembleia será reforçar que a ONU deve refletir o mundo de 2026, e não o de 1945, adaptando-se às novas realidades geopolíticas e tecnológicas.
Reação do Brasil e perspectivas para o futuro da instituição
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, abrirá a sessão com um discurso que enfatiza o multilateralismo e a importância da ONU. Em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, Lula afirmou que a comunidade internacional não pode abandonar o sistema multilateral, especialmente diante de desafios como mudanças climáticas e crises migratórias.
No fim de semana, o Brasil assinou um manifesto ao lado da União Europeia, Canadá e Quênia, pedindo que os líderes globais mantenham o compromisso com a cooperação internacional. O documento destaca a necessidade de financiamento sustentável e de reformas estruturais na ONU.
Lula também criticou a postura de Trump, apontando que a retórica isolacionista do presidente dos EUA vai contra os princípios fundamentais da diplomacia global. O presidente brasileiro prometeu usar sua influência para mobilizar apoio financeiro e político à organização.
Especialistas apontam que, se a ONU conseguir implementar as reformas propostas e garantir um fluxo constante de recursos, ela poderá retomar seu papel de guardiã da paz e dos direitos humanos. Caso contrário, o risco é que a instituição se torne obsoleta, perdendo relevância frente a alianças regionais emergentes.
Em resumo, a 81ª Assembleia Geral representa um ponto de inflexão. A combinação de pressões financeiras, críticas políticas e a urgência de reformas estruturais coloca a ONU em uma encruzilhada que exigirá liderança firme e colaboração entre as grandes potências.








