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Mulheres denunciam décadas de dor pélvica ignorada por preconceito de gênero

Em agosto de 2025, a pesquisadora canadense Larissa Strath, de 35 anos, recebeu nos Estados Unidos a confirmação de que a dor que sentia há quase duas décadas era causada por endometriose. O diagnóstico chegou logo após uma cirurgia, ainda sob efeito da anestesia, e mudou o rumo de sua vida. No Brasil, casos semelhantes vêm sendo relatados, revelando um padrão de desvalorização da dor feminina.

O peso do preconceito no diagnóstico

Desde a primeira menstruação, muitas meninas são ensinadas a aceitar cólicas como parte natural do ciclo. Essa crença cultural se reforça quando mães, avós e outros familiares minimizam a dor, dizendo que “aguentamos firme”. Quando a dor ultrapassa o desconforto, o discurso costuma mudar para “é coisa da cabeça”.

Especialistas apontam que o viés de gênero dos profissionais de saúde é um dos maiores obstáculos. O ginecologista Ricardo Quintairos, presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Febrasgo, afirma que a ideia de que a mulher deve conviver com dor é um mito perigoso. Ele destaca que a falta de protocolos claros também contribui para atrasos de até 20 anos.

Estudos da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 10% das mulheres no mundo sofrem de endometriose, o que representa aproximadamente 7 milhões de brasileiras. Apesar desses números, a maioria dos casos ainda é identificada apenas durante intervenções cirúrgicas invasivas.

  • Falta de treinamento específico sobre dor pélvica nas escolas de medicina;
  • Estigmatização da dor feminina como “exagero”;
  • Escassez de exames de imagem avançados em unidades públicas.

Histórias de dor e superação

Larissa Strath acordou chorando após a cirurgia nos EUA. Ainda sob anestesia, ouviu o médico confirmar que a dor que sentiu por 19 anos era sintoma de endometriose. “Eu não lembro, porque estava anestesiada, mas meu noivo falou: ‘Você ficou repetindo que não era louca’. Foi tão triste que comecei a chorar”, relata.

Do outro lado do continente, a analista de mídia Michelle Sales, 41, vivenciou um momento semelhante em São Paulo. Após ser informada de que precisaria passar por cirurgia por suspeita de endometriose, ela lembrou o diagnóstico anterior de adenomiose e a recusa de um médico que atribuiu sua dor a fatores psicológicos.

“Quando o médico disse ‘você tem endometriose’, respondi imediatamente ‘então não estou louca’”, contou Michelle. A cirurgia durou sete horas, envolvendo a remoção do apêndice, um tumor uterino e a reconstrução do ureter, demonstrando a complexidade dos procedimentos quando o diagnóstico chega tarde.

Ambas as mulheres perderam oportunidades profissionais por causa da dor incapacitante. Michelle relata ter sido demitida de dois empregos, enquanto Larissa descreve episódios de desmaio em sala de aula, que foram interpretados como “menstruação ruim” pelos profissionais que a atenderam.

Essas narrativas ilustram um padrão intergeracional: mães e avós também sofreram com cólicas intensas, mas foram ensinadas a suportar a dor sem questionar. A pesquisadora da IASP, professora assistente da Universidade da Flórida, destaca que essa transmissão de normalização impede que novas gerações busquem ajuda adequada.

O caminho para o reconhecimento da endometriose

Para mudar esse cenário, é necessário combinar educação, políticas públicas e investimento em pesquisa. A criação de centros de referência para dor pélvica, com equipes multidisciplinares, pode reduzir o tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo.

Além disso, campanhas de conscientização dirigidas ao público geral ajudam a desconstruir mitos. Quando as mulheres entendem que a dor intensa não é “normal”, elas se sentem mais seguras para exigir exames adequados.

Os profissionais de saúde também precisam de formação continuada. Cursos que abordem a fisiologia da endometriose, a diferenciação entre dor psicogênica e orgânica, e a importância de ouvir o relato da paciente são fundamentais.

Políticas de saúde podem apoiar o acesso a exames de imagem avançados, como ressonância magnética, que aumentam a taxa de diagnóstico precoce. No Brasil, a ampliação da cobertura do SUS para esses procedimentos seria um passo significativo.

Por fim, a pesquisa deve ser incentivada. Estudos longitudinais que acompanhem pacientes desde a adolescência até a idade adulta podem revelar fatores de risco e melhorar as estratégias de tratamento.

Com a união de pacientes, profissionais e governantes, é possível transformar a realidade de milhares de mulheres que, até hoje, vivem com a sensação de que suas dores são invisíveis.

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