A Motorola foi novamente alvo de críticas ao ser acusada de divulgar informações enganosas sobre a capacidade de memória de seus smartphones, após decisão do Conar divulgada em 26 de setembro de 2024. A controvérsia surgiu a partir de anúncios que combinam RAM física e RAM virtual para alcançar números como “até 24 GB de RAM”. A empresa, que anunciou seu compromisso com a transparência na mesma data, ainda não apresentou provas concretas de que teria ajustado todas as suas páginas.
Como a prática de somar RAM física e virtual foi identificada
Desde meados de 2023, a Motorola começou a destacar em sua loja oficial a expressão “até 24 GB de RAM” em modelos de gama alta. Para chegar a esse número, a fabricante somou a memória RAM física – o chip dedicado ao processamento – com a memória RAM virtual, que utiliza parte do armazenamento interno como suporte temporário.
Embora a tecnologia de RAM virtual (também conhecida como RAM boost) seja reconhecida como recurso de otimização, ela não pode ser contabilizada como memória física na comunicação ao consumidor. No Brasil, a prática de anunciar a soma das duas ainda não se consolidou como padrão de mercado.
O Tecnoblog, ao analisar as páginas de produto da Motorola, encontrou mais de cinquenta anúncios que continham a frase “até X GB de RAM” onde X era a soma de ambos os tipos de memória. Essa constatação gerou a denúncia ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar).
Reação da Motorola e verificação dos canais oficiais
Em nota enviada ao Tecnoblog, a Motorola afirmou que já havia implementado a alteração exigida pelo Conar em seus canais próprios desde o início de agosto de 2024. Contudo, a equipe de reportagem realizou uma checagem em 25 de setembro e constatou que dezenas de produtos ainda continham a informação considerada enganosa.
A empresa fez ajustes pontuais nas páginas na tarde de 26 de setembro, após a primeira divulgação da denúncia. Essa correção tardia indica que o prazo mencionado na nota – “desde o início de agosto” – não corresponde à realidade factual.
Ao ser contatada novamente, o departamento de comunicação da Motorola não respondeu aos questionamentos adicionais, mantendo o espaço aberto para futuras entrevistas.
Para ilustrar a extensão do problema, segue uma lista dos principais modelos que ainda apresentavam a soma de RAM física e virtual nas descrições:
- Motorola Edge 30 Ultra – 12 GB de RAM física + 12 GB de RAM virtual
- Motorola Moto G Power (2024) – 8 GB de RAM física + 8 GB de RAM virtual
- Motorola One Fusion+ – 6 GB de RAM física + 6 GB de RAM virtual
Esses exemplos demonstram que a prática não foi isolada, mas sim recorrente em diferentes linhas de produtos.
Posicionamento do Conar e implicações para o mercado
O Conselho de Ética do Conar analisou o caso de forma unânime e concluiu que a Motorola deve adequar a forma de divulgar a capacidade de memória, distinguindo claramente entre RAM física e virtual. Embora o Conar não possua poder judicial, suas decisões são amplamente respeitadas pelos setores de mídia e publicidade no país.
A entidade ainda não se pronunciou sobre a possibilidade de aplicar a mesma exigência a outras marcas que utilizam a soma de RAM em suas comunicações. Em uma verificação paralela, o Tecnoblog identificou que alguns modelos da Xiaomi e da Jovi também apresentavam a prática, enquanto Apple, Samsung, Realme e Oppo não foram encontrados com esse tipo de anúncio.
Se o Conar decidir estender sua orientação a outros fabricantes, o mercado brasileiro poderá passar por um processo de padronização nas informações de memória, evitando confusões e reforçando a confiança do consumidor.
A Motorola declarou que analisará o teor da decisão para “avaliar ações adicionais”, indicando que pode recorrer ou ajustar suas estratégias de marketing de acordo com as recomendações do órgão.
O que muda para o consumidor
Do ponto de vista técnico, a RAM virtual funciona como um recurso de software que utiliza parte do armazenamento interno para ampliar temporariamente a capacidade de processamento. Em testes realizados, o recurso – conhecido como RAM boost – trouxe um leve ganho de desempenho em situações de alta demanda, como abertura simultânea de múltiplos aplicativos.
No entanto, o consumidor espera que a informação de “até X GB de RAM” reflita a quantidade de memória física disponível no dispositivo, pois esse parâmetro influencia diretamente a fluidez e a capacidade multitarefa do aparelho.
Ao separar claramente as duas métricas, as marcas evitam criar expectativas falsas e permitem que o usuário faça comparações mais precisas entre diferentes modelos.
Enquanto o Conar revisa o caso e possíveis desdobramentos, os consumidores devem ficar atentos às especificações técnicas detalhadas nas páginas de produto, verificando se a memória anunciada corresponde à RAM física ou inclui recursos de otimização.
Em última análise, a disputa entre Motorola e o Conar destaca a importância da transparência nas comunicações de marketing e reforça a necessidade de normas claras para a divulgação de características técnicas em um mercado cada vez mais competitivo.








