O filme “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, foi selecionado como representante do Brasil na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional 2027. A obra, rodada em Quixadá, Ceará, apresenta a história de Gugu, um garoto de 11 anos criado pela avó materna, e propõe uma nova visão do Sertão nordestino.
Visão inovadora sobre o Sertão
Ao contrário das imagens tradicionais de seca e miséria, “Feito Pipa” aposta em afeto, cores vibrantes e música para construir sua narrativa. O roteirista André Araújo explica que o objetivo foi revisitar o imaginário cinematográfico do Nordeste, trazendo luz e alegria ao cenário.
O filme destaca a identidade de personagens como Gugu e Dilma, que utilizam o universo lúdico para se projetar no mundo. Cada cena foi pensada para que a fotografia reflita a riqueza cromática da região, transformando a paisagem em um personagem ativo.
História do retrato do Nordeste no cinema brasileiro
Desde a década de 1950, o interior nordestino tem sido palco de diferentes estéticas cinematográficas. Produções como “O Cangaceiro” (1953) abriram caminho para um olhar que, por muito tempo, associou o Sertão à violência e à pobreza.
O Cinema Novo, liderado por Glauber Rocha, intensificou essa associação ao usar a paisagem sertaneja como símbolo das desigualdades sociais, como em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964). Essa tradição criou um imaginário quase cristalizado na memória coletiva.
Entretanto, nas últimas décadas, novos cineastas começaram a romper com esse padrão. Filmes como “O Céu de Suely” (2006), “Bacurau” (2019) e “Paloma” (2022) ampliaram o repertório de histórias, apresentando personagens complexos e cenários diversificados.
- “O Cangaceiro” (1953) – Primeira grande exposição do Sertão.
- “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) – Símbolo do Cinema Novo.
- “O Céu de Suely” (2006) – Retrato intimista da vida rural.
- “Bacurau” (2019) – Mistura de ficção científica e crítica social.
- “Paloma” (2022) – Narrativa poética sobre resistência.
Feito Pipa e a nova geração de cineastas
Allan Deberton, cineasta cearense, incorpora essa nova onda ao escolher Quixadá como cenário principal. A cidade, conhecida por suas formações rochosas e clima seco, ganha nova vida através da paleta de cores escolhida para o filme.
O jovem ator Yuri Gomes, que interpreta Gugu, traz autenticidade ao papel ao crescer em meio a essa realidade. Sua performance, combinada com a direção sensível de Deberton, cria uma atmosfera que mistura nostalgia e esperança.
André Araújo, roteirista, também colaborou em outros projetos que exploram o Sertão, como “Pacarrete” (2019). Essa experiência permitiu que ele desenvolvesse um discurso que valoriza a multiplicidade de vozes presentes na região.
Além da estética visual, a trilha sonora do filme incorpora ritmos locais, como o forró e o baião, reforçando a conexão emocional com o público. A música funciona como ponte entre o passado e o presente, celebrando a cultura popular.
Impacto cultural e perspectivas para o Oscar
Ao ser escolhido como candidato brasileiro ao Oscar 2027, “Feito Pipa” tem a oportunidade de levar ao mundo uma imagem renovada do Nordeste. O filme desafia estereótipos e oferece ao público internacional uma perspectiva mais humana e colorida.
Especialistas em cinema apontam que a originalidade visual e a narrativa sensível podem ser diferenciais importantes na competição. A representatividade de personagens nordestinos autênticos também agrega valor cultural ao longo da disputa.
A pesquisadora Eliana Guerra, doutora em História da Arte, destaca que o Sertão funciona como “dispositivo estético e político” nas obras cinematográficas. Segundo ela, escolher como representar o Sertão implica decidir quais histórias serão ouvidas.
Com “Feito Pipa”, a escolha recai sobre a celebração da vida cotidiana, das relações familiares e da criatividade infantil. Essa abordagem abre espaço para que outras produções regionais ganhem visibilidade em festivais internacionais.
O sucesso do filme pode inspirar novos projetos que explorem diferentes facetas do Sertão, incentivando investimentos em produção local e formação de profissionais. A cadeia produtiva do cinema nordestino tem potencial para crescer de forma sustentável.
Em resumo, “Feito Pipa” representa um marco na evolução do cinema brasileiro, ao transformar o Sertão em tela de cores, afetos e memórias. Seu caminho rumo ao Oscar pode ser o ponto de partida para uma nova era de representações regionais no cenário global.








