O Ministério Público de São Paulo denunciou nesta quinta‑feira (10/09) a suspeita de envolvimento da Trocafone, grande varejista de aparelhos usados, em um esquema de receptação e revenda de celulares furtados. A acusação foi feita no âmbito da Operação Frankmobile, que investiga o destino de aparelhos subtraídos na capital paulista e em municípios do interior. As investigações apontam movimentações financeiras de quase R$ 96 milhões e bloqueios de bens no valor de R$ 5 milhões.
Operação Frankmobile e o alcance da investigação
A Operação Frankmobile reúne esforços de mais de 1.700 agentes do Ministério Público, das polícias Militar e Civil, além de outros órgãos públicos. Foram cumpridos 84 mandados de busca e apreensão e sete mandados de prisão temporária em São Paulo e Goiás. O objetivo central é mapear a cadeia de comercialização de celulares roubados, que inclui desde o furto até a desmontagem das peças para revenda.
Segundo o relatório do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), foram identificados 759.300 aparelhos cujos números IMEI constavam em notas fiscais, mas não tinham registro de entrada regular nas empresas. Esse cruzamento de dados fiscais revelou uma discrepância alarmante entre vendas declaradas e a origem dos dispositivos.
Detalhes financeiros e bloqueios
As investigações financeiras encontraram 18 relatórios de operações atípicas emitidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) entre 2018 e 2024. Essas operações somam R$ 95,8 milhões, distribuídos em centenas de depósitos fracionados, a maioria abaixo de R$ 10 mil, prática que pode indicar tentativa de ocultação e lavagem de dinheiro.
O GAECO também apontou 1.299 depósitos menores que R$ 10 mil, sinalizando um padrão de fragmentação de recursos para dificultar a rastreabilidade. Como medida cautelar, foram bloqueados R$ 5 milhões em contas bancárias e bens dos investigados, reforçando a gravidade das suspeitas.
Os investigadores descreveram a organização criminosa em quatro núcleos distintos:
- Núcleo 1: responsável pelos furtos e roubos de aparelhos.
- Núcleo 2: encarregado de desbloquear os celulares e acessar contas bancárias e dados das vítimas.
- Núcleo 3: dedicado à adulteração de IMEIs e à revenda dos aparelhos.
- Núcleo 4: focado no desmonte dos aparelhos e na comercialização das peças.
Reação da Trocafone e impactos no mercado
Em entrevista ao Tecnoblog, a Trocafone negou qualquer envolvimento no esquema investigado e reforçou que opera de forma lícita. A empresa afirmou que adota procedimentos rigorosos para verificar a procedência dos aparelhos, incluindo identificação dos vendedores, análise documental e consultas ao IMEI em diferentes etapas da operação.
Quando um celular apresenta bloqueios, restrições ou indícios de origem ilícita, a companhia garante que o aparelho é separado e não segue para a venda ao consumidor final. Além disso, a Trocafone declarou que está contestando os apontamentos das autoridades, apresentando registros fiscais, financeiros e operacionais para comprovar a regularidade de suas atividades.
A empresa também ressaltou que continua colaborando com as investigações, disponibilizando informações e documentos que possam auxiliar na elucidação dos fatos. Essa postura busca preservar a reputação da marca e a confiança dos clientes, que tem crescido nos últimos anos devido ao aumento da demanda por aparelhos recondicionados.
Especialistas apontam que o caso pode gerar reflexos importantes no mercado de celulares usados no Brasil. A exposição de possíveis falhas na cadeia de comercialização pode levar a um endurecimento das normas de controle de procedência e a um maior escrutínio por parte dos órgãos reguladores.
Enquanto o processo judicial avança, consumidores são aconselhados a verificar a origem dos aparelhos antes da compra, exigindo documentos que comprovem a legalidade do equipamento e conferindo o número IMEI em bases oficiais. A transparência na cadeia de fornecimento torna‑se, assim, um fator decisivo para a confiança do público.








