Um estudo da J.P. Morgan projeta que o mercado de canetas injetáveis de GLP‑1 pode triplicar até 2035, alcançando US$ 22 bilhões nos países Brasil, China e Índia. A estimativa foi divulgada em 2024 e considera a evolução de preços, patentes e políticas de saúde. O levantamento destaca o potencial de expansão em três das maiores economias emergentes do mundo.
Crescimento projetado e fatores impulsionadores
Segundo analistas liderados por Yang Huang, a taxa média de crescimento anual deve ficar em torno de 15% até 2035. Esse ritmo acelerado reflete a combinação de redução de preços, ampliação da cobertura de planos de saúde e a chegada de versões genéricas dos principais agonistas do receptor GLP‑1.
Os medicamentos Ozempic, Wegovy (Novo Nordisk) e Zepbound (Eli Lilly) são exemplos de fármacos que imitam o hormônio GLP‑1, ajudando a controlar a glicemia e a reduzir o apetite. Embora originalmente desenvolvidos para o diabetes tipo 2, eles têm sido cada vez mais prescritos para o tratamento da obesidade.
O Brasil, a China e a Índia concentram, respectivamente, 12%, mais de 25% e 15% dos casos globais de diabetes diagnosticados. Esses números criam uma base de pacientes que pode se beneficiar dos novos tratamentos, impulsionando a demanda.
Além disso, a expiração de patentes de medicamentos de referência permite a entrada de genéricos com preços mais competitivos. Políticas públicas que buscam reduzir o custo dos insumos também colaboram para tornar as canetas GLP‑1 mais acessíveis.
Desafios de adoção nos mercados emergentes
Apesar do potencial, a penetração atual desses fármacos ainda é baixa. No Brasil, menos de 0,1% da população utiliza canetas GLP‑1, enquanto na China e na Índia os números ficam abaixo de 0,2%.
Os principais obstáculos incluem o alto custo inicial, a necessidade de aplicação injetável e a resistência cultural ao uso de medicamentos biotecnológicos. Na Índia, por exemplo, a preferência por terapias orais ainda predomina.
Outro fator limitante é a falta de conscientização sobre a eficácia desses tratamentos no controle da obesidade. Muitos pacientes ainda associam o uso de injeções a condições graves, como o diabetes, e hesitam em adotar a terapia para perda de peso.
Para superar esses entraves, governos e operadoras de saúde precisam investir em campanhas de informação e em programas de subsídio que reduzam a carga financeira sobre o paciente.
Perspectivas para as indústrias farmacêuticas
O relatório da J.P. Morgan aponta que empresas como a chinesa Innovent, as indianas Divi’s Laboratories e Torrent Pharmaceuticals, e a brasileira RD Saúde (controladora das redes Raia e Drogasil) podem se beneficiar desse crescimento.
- Innovent: foco em biotecnologia e desenvolvimento de versões genéricas de GLP‑1.
- Divi’s Laboratories: produção de ingredientes ativos para medicamentos injetáveis.
- Torrent Pharmaceuticals: expansão de portfólio em terapias para diabetes e obesidade.
- RD Saúde: rede de farmácias que pode ampliar a distribuição e o acesso ao tratamento.
Com a China projetada para ultrapassar o Brasil em volume de mercado já em 2027, a competição internacional deve se intensificar. A expectativa é que o mercado chinês alcance US$ 13,7 bilhões até 2035, enquanto o brasileiro deve ficar em torno de US$ 8 bilhões.
Empresas que investirem em pesquisa de formulações mais estáveis, dispositivos de aplicação mais amigáveis e estratégias de preço competitivo terão maior chance de capturar fatias significativas desse mercado em expansão.
Impactos para pacientes e políticas públicas
O aumento da disponibilidade de canetas GLP‑1 pode transformar o panorama do tratamento da obesidade, reduzindo complicações associadas ao excesso de peso, como hipertensão, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.
Entretanto, a efetividade da política de saúde depende de como os sistemas públicos e privados integrarão esses medicamentos às suas listas de cobertura. Reduções de preço e acordos de compra em larga escala são essenciais para garantir que os benefícios cheguem à população de baixa renda.
Além disso, a adoção de protocolos clínicos que incluam a avaliação de risco-benefício para pacientes com obesidade leve a moderada pode ampliar o número de prescritores e, consequentemente, o número de usuários.
Em resumo, o cenário aponta para um mercado em rápido crescimento, impulsionado por fatores econômicos, demográficos e regulatórios. O sucesso dependerá da capacidade dos governos, das seguradoras e das próprias indústrias farmacêuticas de superar barreiras de preço, acesso e aceitação cultural.








