Michal Lotem, imunologista israelense, atende pacientes com câncer e conduz ensaios clínicos no Hospital Hadassah, em Jerusalém, enquanto a cidade vive o terceiro ano do conflito entre Israel e Hamas. Ela combina a prática clínica com a direção do Instituto de Pesquisa do Câncer Hadassah, buscando curas para tumores agressivos como o melanoma. O cenário de guerra torna cada consulta, cada coleta de amostra, um ato de resistência e esperança.
Desafios de atender pacientes em zona de conflito
O cotidiano no Hadassah exige adaptação constante. As ruas ao redor do hospital são marcadas por postos de controle, sirenes e interrupções no transporte público. Pacientes relutam em sair de casa, temendo bombardeios ou bloqueios, o que atrasa visitas de acompanhamento e a coleta de dados essenciais para os estudos.
Para manter a integridade dos protocolos clínicos, a equipe de Lotem implementou rotas alternativas e horários flexíveis. Em alguns casos, as consultas são realizadas por telemedicina, mas a maioria dos exames de imagem e biopsias ainda precisa ser feita presencialmente, o que aumenta o risco logístico.
Além da insegurança externa, há o desafio interno de garantir que os recursos – medicamentos, reagentes e equipamentos – cheguem ao hospital sem atrasos. A escassez de suprimentos pode comprometer a dosagem correta de imunoterapias, que dependem de rigoroso controle de temperatura e tempo de administração.
Apesar das dificuldades, a médica relata que o comprometimento dos pacientes é surpreendente. Muitos chegam a pé, atravessando bairros que ainda enfrentam artilharia, apenas para garantir a continuidade do tratamento. Essa determinação reforça a importância de um serviço de saúde que não faz distinção entre judeus e árabes.
Inovações na imunoterapia e terapias de RNA
Lotem destaca a imunoterapia como o maior avanço oncológico da última década. A técnica estimula o próprio sistema imunológico a reconhecer e destruir células cancerosas, oferecendo esperança para casos de metástase que antes eram considerados incuráveis.
Recentemente, a FDA aprovou um novo medicamento para câncer de pâncreas, ampliando o leque de opções para um tumor historicamente resistente. Esse marco reforça a eficácia das abordagens baseadas em checkpoint inhibitors e terapias combinadas.
Paralelamente, a pesquisadora tem desenvolvido terapias de RNA mensageiro (mRNA) direcionadas a mutações específicas de cada tumor. Diferente das vacinas contra a Covid‑19, que são produzidas em massa, o tratamento oncológico de mRNA é customizado para cada paciente, levando em conta o perfil genético do câncer.
Os passos da tecnologia são:
- Sequenciamento do genoma tumoral para identificar mutações alvo.
- Síntese de moléculas de mRNA que codificam antígenos tumorais específicos.
- Encapsulamento em nanopartículas lipídicas para entrega segura às células.
- Administração intravenosa seguida de monitoramento da resposta imunológica.
Os primeiros ensaios mostraram respostas imunológicas robustas em pacientes com melanoma avançado, reduzindo o tamanho das lesões e, em alguns casos, levando à remissão completa.
Lotem enfatiza que, embora ainda haja desafios – como a estabilidade do mRNA e possíveis reações adversas – a personalização da terapia abre caminho para tratamentos mais eficazes e menos tóxicos.
Impacto social e futuro da pesquisa oncológica em Jerusalém
O Hospital Hadassah tem um papel social único: oferece atendimento gratuito a toda a população, independentemente da origem étnica ou religiosa. Essa política de inclusão cria um ambiente de confiança que facilita a coleta de dados diversificados, essencial para validar terapias em diferentes grupos genéticos.
Ao integrar pacientes judeus e árabes em estudos clínicos, a equipe de Lotem demonstra que a ciência pode ser um ponto de convergência em meio à divisão. Muitos pacientes relatam que a presença de profissionais de ambos os lados da comunidade gera um sentimento de solidariedade que transcende o conflito.
O futuro da pesquisa no Hadassah está ligado a parcerias internacionais. Laboratórios dos Estados Unidos, da Europa e de países árabes têm colaborado no compartilhamento de amostras e na co‑desenvolvimento de novas moléculas de imunoterapia.
Além disso, a médica está envolvida em programas de capacitação para jovens cientistas locais, incentivando a formação de uma nova geração de oncologistas que crescerá em um ambiente de inovação, apesar das adversidades.
Em suma, a trajetória de Michal Lotem evidencia que a luta contra o câncer pode avançar mesmo nas circunstâncias mais adversas. Seu trabalho combina excelência científica, empatia clínica e um compromisso inabalável com a saúde de toda a comunidade de Jerusalém.








